6/4 - O elogio da mentira

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O elogio da mentira

Vivemos a era em que a mentira dispensa argumentos porque cavalga a fé e se destina a convertidos. A conversão é ato emocional de entrega da razão. O fato cultural mais importante do Século XX foi a captura da fé pela filosofia, que assim decretou a obsolescência da crítica racional; posta em prática, essa é, agora a grande novidade.
Para acreditar na mentira, é preciso perder a noção das proporções – imaginar, por exemplo, que um sujeito de vida modesta presidiu, por décadas, um grande partido político nacional, durante oito anos comandou recursos públicos trilionários com salário alto e despesas pagas e, depois, se deixou corromper por três cubículos e duas escadarias, ou pela hospedagem em um sítio remoto, nos fins de semana.
Aceitar — como já afirmaram ongs interessadas –, que as represas de hidrelétricas brasileiras retardariam a rotação da Terra, este planeta de massa tão maior; que o lago da barragem de Tucuruí empestearia a Amazônia com emanações de metano e gás sulfídrico; ou que inseticidas e fungicidas usados nas lavouras (antes, as vacinas) seriam a causa do autismo, afirmação que ouço repetirem agora.
Admitir que não houve um golpe de estado em 1964, quando houve, e dado antes do tempo por velho militante integralista Olimpio Mourão Filho, o mesmo autor do Plano Cohen, mentira antissemita de 28 anos antes.
Por que a política – o debate sobre a gestão das causas públicas –, a ecologia – a preocupação com o meio ambiente – ou a narrativa histórica aceitaram conviver assim com o altamente improvável — portanto, que teria de ser bem comprovado – e deslavadas falsidades?
O que levou falantes institucionais, tratando de assuntos tão sérios, a violar a primeira das normas de conversação do filósofo inglês Paul Grice: “não afirme o que crê ser falso ou de que não tem provas suficientes para confirmar a veracidade”?
“Deus morreu”, escreveu Nietzsche –, mas não a retórica das religiões, que, em Seu nome, ora consagraram vacas indianas para salvar o leite das crianças, ora inventaram um santo graal – o cálice de Jesus aprisionado em Jerusalém – para dar finalidade às cruzadas cristãs contra o islamismo. Jean Paul Sartre observou que, sem a divindade a quem atribuir as culpas, os homens já não poderiam furtar-se à responsabilidade pelas consequências de seus atos.
Coube a Martin Heidegger, o filósofo mais influente do Século XX, proclamar o que se chamaria de “fé sem Deus”: em seu artigo “Sobre a essência da verdade” (1943), afirma o poder de alguns homens de conformar o mundo a seu discurso, e não o contrário como propusera, no Século IX, Isaac Israeli: “adaequatio intelectus ad rem”, adequar o
Tal perspectiva abstrata contemplou, ainda em vida desses personagens, duas aplicações práticas: a desenvolvida com poderes absolutos do Estado por Joseph Goebbels, na Alemanha nazista; e a que se consolidou nos Estados Unidos – e, daí, para o mundp – a partir da proposta de “fabricação do consentimento” de Walter Lippman (“Public Opinion”, 1922) e Edward Bernays (“Propaganda”, 1932), mediante o uso orquestrado dos meios de comunicação.
São iniciativas paralelas, que trocaram informações o tempo todo; após a Segunda Guerra Mundial, estratégias metodológicas desenvolvidas pelos alemães, sobretudo no controle dos currículos escolares, foram incorporadas pelos americanos, tal como a tecnologia dos mísseis V-2.
Em um texto de 1988 (“Manufacturing Consent”), Noam Chomsky e Edward Herman constantam que a grande mídia dos Estados Unidos tornou-se “um eficiente e poderoso conjunto e instituições ideológicas que desempenham função de propaganda sistêmica em conformidade com forças do mercado, presunções internalizadas e autocensura, sem coerção visível”.
Nos últimos 30 anos, com a globalização, o crescente desafio à hegemonia global e a concentração das tais “forças do mercado” – reduzidas hoje aos interesses de investidores financeiros – tornou-se necessário incorporar tortuosamente ao liberalismo de ascendência inglesa e matriz vitoriana a retórica fascista – e, com ela, a pós-ciência e a pós-verdade, novos nomes para a crendice e a mentira, temperadas pela arrogância.
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