Dom 28/02/21 16:58
Altamiro Borges
Altamiro Borges |
- OMS alerta para a tragédia da Covid no Brasil
- Queda de investimentos e a “retomada em V”
- A Justiça e o governo Bolsonaro
- Mutirão Lula Livre #anulaSTF
- Cultura é vida! É política!
- O lugar da universidade brasileira
- Brasil à beira do colapso do sistema de saúde
- A espetacularização da MP da Eletrobras
- STF, cúpula militar e o governo ilegítimo
- Receita simples para restaurar a democracia
- Guedes perde também o presidente do BB
- Bolsonaro sabota vacinas e libera armas
- Bolsonaro tenta se reaproximar de militares
- Alta da gasolina e do diesel e a Petrobras
- O governo da queimada e da destruição
- Moro: A construção de um juiz acima da lei
- Preços e privatização fatiada da Petrobras
- O primeiro ato de guerra de Joe Biden
- Aprovação de Bolsonaro segue ladeira abaixo
- Brasil em estado gravíssimo pela Covid-19
- Auxílio emergencial e a chantagem de Guedes
- Fiat enriqueceu com espionagem na ditadura
- O que é a criminosa xenofobia
- Show de mortes por Covid no Brasil do BBB
OMS alerta para a tragédia da Covid no Brasil Posted: 28 Feb 2021 07:43 AM PST Por Altamiro Borges Em entrevista nesta sexta-feira (26), o diretor de operações da Organização Mundial da Saúde (OMS), Mike Ryan, tratou como "tragédia" a situação da pandemia da Covid-19 no Brasil. "Muitas regiões sofreram prolongados períodos de intensa transmissão... Tem sido muito duro para os brasileiros, em geral". "Infelizmente, é uma tragédia que o país esteja sofrendo isso de novo", lamentou o diretor da OMS. Para ele, trata-se da quarta vez que uma onda de crescimento dos contágios e mortes ocorre no país. "Isso é muito duro e precisamos mostrar solidariedade com o Brasil, fornecendo ajuda onde precisarem". As provocações do genocida no Ceará O genocida que desgoverna o país, porém, parece não querer ajuda para enfrentar o avanço mortal do vírus. Pelo contrário. Ele desrespeita todas orientações da OMS e da ciência. Na mesma sexta-feira, em mais um ato insano, ele promoveu novas aglomerações ao inaugurar um trecho de uma rodovia no interior do Ceará. Como registrou indignado o jornalista Chico Alves, no site UOL, "em sua campanha antecipada à reeleição", o presidente "sorriu e comentou o Campeonato Brasileiro, como se o país estivesse em situação amena. Só fechou mesmo a cara quando disparou mais uma fala irresponsável sobre a pandemia de coronavírus". O negacionista bradou que "o povo não aguenta mais ficar em casa", exortando seus fanáticos seguidores a se insurgirem contra as medidas de prevenção e de distanciamento social. Um dia antes, Bolsonaro já tinha criticado o uso de máscaras como meio de prevenção contra a Covid-19. Seu piriri verborrágico não para! "Vidas perdidas não comovem" Bolsonaro Diante de mais esse gesto insano, o jornalista afirma que "a confusão mental e a falta de empatia de Bolsonaro não permitem que ele se emocione" com o aumento de mortes no Brasil. "As vidas perdidas não o comovem... Como a coluna já consignou, é mais caso de psiquiatria que de análise política". "Bolsonaro participa de inaugurações que seriam mais adequadas a um vereador, articula o livramento de seu filho Flávio da acusação de rachadinha, assina decretos que liberam armas... Faz tudo, menos tomar providências urgentes para garantir a vacina que os brasileiros esperam". De fato, é um psicopata. "É preciso lembrar, porém, que nem toda patologia psiquiátrica torna o portador inimputável. Alguém deveria avisar ao delirante Bolsonaro que ele um dia poderá, sim, ser responsabilizado judicialmente pelo que está fazendo e deixando de fazer. Para o bem da população, que esse dia não demore a chegar", conclui Chico Alves. Camilo Santana e o protesto dos médicos Em tempo: Certo fez o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), que se recusou a participar do evento eleitoreiro e criminoso encenado pelo “capetão” no interior do Estado. “Tenho todo respeito à autoridade, mas não posso compactuar com aquilo que considero grande equívoco”, postou nas redes sociais, referindo-se ao desrespeito às regras sanitárias do isolamento social. Também acertaram os médicos e profissionais da saúde que realizaram na manhã daquela sexta-feira um ato em Fortaleza em repúdio à visita do presidente ao Estado. "Fora, Bolsonaro", “Bolsonaro não é bem-vindo aqui” e “SUS salva, ele não” foram algumas das frases estampados nos cartazes durante manifestação, na praia de Iracema. O protesto foi organizado pelo movimento “Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS”. “Estamos aqui para dizer que o Bolsonaro não é bem-vindo para aglomerar, para pregar o não uso de máscaras e jogar contra quem está tentando mitigar essa pandemia. Isso é um acinte a quem está trabalhando na linha de frente”, desabafou a médica Elodie Hippolyto à Folha. |
Queda de investimentos e a “retomada em V” Posted: 28 Feb 2021 06:54 AM PST |
A Justiça e o governo Bolsonaro Posted: 28 Feb 2021 06:51 AM PST |
Posted: 28 Feb 2021 06:48 AM PST |
Posted: 28 Feb 2021 06:45 AM PST |
O lugar da universidade brasileira Posted: 28 Feb 2021 06:39 AM PST Por Marilena Chaui, no site A terra é redonda: “E daí? Não sou coveiro”. Tomo essa declaração como emblema do que pretendo lhes dizer hoje. 1. Inimigo da tirania, o filósofo Montaigne escreveu um ensaio intitulado “A covardia é a mãe da crueldade”. A covardia, explica o filósofo, nasce do medo do outro que, por isso, deve ser eliminado de maneira feroz. O covarde é impulsionado pelo temor de que o outro, sendo melhor do que ele e corajoso, possa vence-lo e por isso é preciso extermina-lo, seja fisicamente, seja moralmente, seja politicamente. O cruel é um mentiroso porque se apresenta com a máscara da coragem quando, na verdade, habitado pelo medo, é movido pela cólera e não há nada pior para uma sociedade do que um governante cruel e colérico, pois não julga segundo a lei e sim segundo seu medo. Um dos contrapontos mais belos ao ensaio contra a covardia e a crueldade, é aquele sobre a amizade, que Montaigne dedicou à memória de seu amigo, Etienne de La Boétie, que morreu prematuramente e que, como Montaigne, se erguera contra a tirania, escrevendo um texto conhecido como Discurso da servidão voluntária no qual reencontramos a figura do tirano como covarde e cruel. O Discurso da servidão voluntária, como seu título indica, debruça-se sobre um enigma: como os homens, seres que a Natureza fez livres, usaram a liberdade para destruí-la? Como é possível uma servidão que seja voluntária? De fato, escreve La Boétie, servidão voluntária é alguma coisa que a Natureza, ministra de Deus e boa governante de todas as coisas, se recusou a ter feito. Mais do que isso. Servidão voluntária é algo que a própria linguagem se recusa a nomear, pois essa expressão é uma contradição nos termos, uma vez que vontade livre e servidão são opostas e contrárias: toda vontade é livre e só há servos por coerção ou contra a vontade, coisa de que até os animais dão prova. O enigma, portanto, é duplo: como homens livres se dispuseram livremente a servir e como a servidão pode ser voluntária? A força do tirano, explica La Boétie, não está onde imaginamos encontrá-la: nas fortalezas que o cercam e nas armas que o protegem. Pelo contrário, se precisa de fortalezas e armas, se teme a rua e o palácio, é porque é covarde, sente-se ameaçado e precisa exibir signos de força ou atos de crueldade. Fisicamente, um tirano é um homem como outro qualquer – tem dois olhos, duas mãos, uma boca, dois pés, dois ouvidos; moralmente, é um covarde, prova disso estando na exibição dos signos de força e nos atos de crueldade. Se assim é, de onde vem seu poder, tão grande que ninguém pensa em dar fim à tirania? Responde La Boétie: sua força vem da ampliação colossal de seu corpo físico por meio de seu corpo político, que dá lhe mil olhos e mil ouvidos para espionar, mil mãos para espoliar e esganar, mil pés para esmagar e pisotear. O corpo físico do tirano não é ampliado apenas pelo corpo político como corpo de um colosso, também sua alma é ampliada por meio das falsas leis, que lhe permitem distribuir favores e privilégios e seduzir os incautos para que vivam à sua volta para satisfazê-lo a todo instante e a qualquer custo. Entretanto, é preciso perguntar: quem lhe dá esse corpo político gigantesco, sedutor e malévolo? A resposta é imediata: somos nós quem lhe damos nossos olhos e ouvidos, nossas mãos e nossos pés, nossas bocas, nossos bens e nossos filhos, nossas almas, nossa honra, nosso sangue e nossas vidas para alimentá-lo e aumentar-lhe o poder com que nos destrói. Por isso, diz La Boétie: não é preciso lutar contra ele, basta não lhe dar o que nos pede; se não lhe dermos nossos corpos e nossas almas, ele cairá. Mas, se é tão clara a resposta, maior então é o enigma da servidão voluntária, pois se é coisa fácil derrubar a tirania é preciso indagar por que servimos voluntariamente ao que nos destrói. A resposta de La Boétie é terrível: consentimos em servir porque também esperamos ser servidos. Servimos ao tirano porque somos tiranetes: cada um serve ao tirano porque deseja ser servido pelos demais que lhe estão abaixo; cada um dá os bens e a vida ao tirano porque deseja apossar-se dos bens e das vidas dos que lhe estão abaixo. A servidão é voluntária porque há desejo de servir, há desejo de servir porque há desejo de poder e há desejo de poder porque a tirania habita cada um de nós e institui uma sociedade tirânica, ou seja, a tirania não se encontra no topo do social, mas espalhada por ele e a crueldade se espalha por toda parte. A covardia se manifesta na crueldade física, psicológica, moral e política com que cada um deseja esmagar e exterminar quem recusa a tirania. Não há apenas o tirano, mas uma sociedade tirânica e cruel. Disso o Brasil é um exemplo perfeito, no qual a violência não é percebida ali mesmo onde se origina e ali mesmo onde se define como violência propriamente dita, isto é, como toda prática e toda ideia que reduz um sujeito à condição de coisa, que viola interior e exteriormente o ser de alguém, que perpetua a crueldade nas relações sociais de profunda desigualdade econômica, social e cultural. Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade brasileira é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades, que reforçam a relação mando-obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade. As relações, entre os que julgam iguais, são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade; e, entre os que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação, e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão. Há, assim, a naturalização das desigualdades econômicas e sociais, do mesmo modo que há naturalização das diferenças étnicas (consideradas desigualdades raciais entre superiores e inferiores), religiosas e de gênero, bem como naturalização de todas formas visíveis e invisíveis de violência, como o racismo, o machismo, a homofobia. Nela, as leis são armas para preservar privilégios e o melhor instrumento para a repressão e a opressão, jamais definindo direitos e deveres concretos e compreensíveis para todos. Para os grandes, a lei é privilégio; para as camadas populares, repressão. Em nossa sociedade, não existem nem a ideia nem a prática da representação política autêntica. Os partidos políticos tendem a ser clubes privados das oligarquias locais e regionais, sempre tomam a forma clientelística na qual a relação é de tutela e de favor. É uma sociedade, consequentemente, na qual a esfera pública nunca chega a constituir-se como pública, pois é definida sempre e imediatamente pelas exigências do espaço privado (isto é, dos interesses econômicos dos dominantes). Social e economicamente a divisão social entre os grandes e o povo aparece na polarização entre a carência absoluta das camadas populares e o privilégio absoluto das camadas dominantes, consolidando uma estrutura tirânica que bloqueia a instituição e a consolidação de uma sociedade democrática. De fato, fundada na noção de direitos, a democracia está apta a diferenciá-los de privilégios e carências. Um privilégio é, por definição, algo particular que não pode generalizar-se nem universalizar-se sem deixar de ser privilégio. Uma carência é uma falta também particular ou específica que se exprime numa demanda também particular ou específica, não conseguindo generalizar-se nem universalizar-se. Um direito, ao contrário de carências e privilégios, não é particular e específico, mas geral e universal, seja porque é o mesmo e válido para todos os indivíduos, grupos e classes sociais, seja porque embora diferenciado é reconhecido por todos (como é caso dos chamados direitos das minorias). Assim, a polarização econômico-social entre a carência e o privilégio firma os alicerces da sociedade tirânica e se ergue como obstáculo à instituição de direitos, definidora da sociedade democrática. Não nos deve surpreender, portanto, que a crueldade do “E daí? Não sou coveiro” possa ser reproduzida socialmente com a crueldade da chamada “vacina de vento”. Assim, nossa pergunta: porque nada acontece diante da crueldade que assola o país? tem como resposta: porque a tirania é o modo de ser de nossa sociedade. 2. A crueldade também se exprime num tipo preciso de covardia: a da mentira política. Deixemos a palavra a Hannah Arendt: “a negação deliberada da verdade dos fatos – isto é, a capacidade de mentir – e a faculdade de mudar os fatos – isto é, a capacidade de agir – estão interligadas”, e, prossegue ela, “a veracidade dos fatos nunca é forçosamente verdadeira. Os historiadores sabem como é vulnerável a textura dos fatos na qual passamos nossa vida cotidiana e está sempre em perigo de ser perfurada por mentiras comuns ou ser estraçalhada pela mentira organizada de grupos, classes ou nações, de ser negada e distorcida, muitas vezes encoberta cuidadosamente por camadas de falsidade, ou ser simplesmente deixada cair no esquecimento. Os fatos necessitam de testemunho para serem lembrados e de testemunhas de confiança para se estabelecerem para que possam encontrar um abrigo seguro no campo dos assuntos humanos … é esta fragilidade que torna o embuste tão fácil e tão tentador (…) O mentiroso tem a grande vantagem de saber de antemão o que a plateia espera ouvir. Ele prepara sua história com muito cuidado para consumo público, de modo a torna-la crível, já que a realidade tem o desconcertante hábito de nos defrontar com o inesperado para o qual não estamos preparados”.[1] A mentira deliberada consiste naquilo que o filósofo Theodor Adorno chamou de cinismo. O cinismo não é apenas a deliberação de mentir, mas a de tornar irrelevante a distinção entre o verdadeiro e o falso. Nada mais cínico, por exemplo, do que a afirmação governamental de que os indígenas são responsáveis pelo desmatamento de nossas florestas e destruidores do meio ambiente. Ora a distinção entre o verdadeiro e o falso é a marca essencial do pensamento e por isso podemos dizer que a crueldade se manifesta como ódio ao pensamento. Não por acaso, o primeiro exemplo escolhido por Montaigne para ilustrar o laço entre covardia e crueldade é o de Sócrates, que, em sua incansável busca da verdade e da justiça, enfrentou com coragem um tribunal que dele tinha medo e por isso o condenou à morte. O ódio ao pensamento é o medo de por em questão o senso-comum, as ideias pré-estabelecidas. Por que ódio e medo se juntam aqui? Por que o pensamento, ao questionar o senso-comum, tem força transformadora: ao pensar, o pensamento faz pensar, dá o que pensar e abala os fundamentos do senso-comum. O ódio ao pensamento aparece no ódio à universidade pública. 3. Desde seu surgimento (no século XIII europeu), a universidade sempre foi uma instituição social, isto é, uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da ideia de autonomia do saber em face da religião e do Estado, portanto, na ideia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão. Por isso mesmo, a universidade europeia tornou-se inseparável das ideias de formação, reflexão, criação e crítica. Com as lutas sociais e políticas dos últimos séculos, com a conquista da educação e da cultura como direitos, a universidade tornou-se também uma instituição social inseparável da ideia de democracia e de democratização do saber: seja para realizar essa ideia, seja para opor-se a ela, a instituição universitária não pôde furtar-se à referência à democracia como ideia reguladora. A universidade se dedica à formação e à pesquisa. O que significa formação? Antes de mais nada, como a própria palavra indica, uma relação com o tempo: é introduzir alguém ao passado de sua cultura (no sentido antropológico do termo, isto é, como ordem simbólica), é despertar alguém para as questões que esse passado engendra para o presente, e é estimular a passagem do instituído ao instituinte. O que Merleau-Ponty diz sobre a obra de arte nos ajuda aqui: a obra de arte recolhe o passado imemorial contido na percepção, interroga a percepção presente e busca ultrapassar a situação dada oferecendo-lhe um sentido novo que não poderia vir à existência sem a própria obra. Da mesma maneira, a obra de pensamento só é fecunda quando pensa e diz o que sem ela não poderia ser pensado nem dito, e sobretudo quando, por seu próprio excesso, nos dá a pensar e a dizer, criando em seu próprio interior uma posteridade que irá superá-la. Ao instituir o novo sobre o que estava sedimentado na cultura, a obra de arte e a de pensamento reabrem o tempo e formam o futuro. Podemos dizer que há formação quando há obra de pensamento e que há obra de pensamento quando o presente é apreendido como aquilo que exige de nós o trabalho da interrogação, da reflexão e da crítica, de tal maneira que nos tornamos capazes de elevar ao plano do conceito o que foi experimentado como questão, pergunta, problema, dificuldade. A formação recolhe o passado – que foi pensado, dito, feito -, o compreende em seu presente e no nosso; interroga o presente – o que há para ser pensado, dito e feito; e abre o futuro como porvir – o que nossa interrogação deixa para os que virão depois de nós quando se puserem a pensar, dizer e fazer. A formação é o que permite o nascimento e o desenvolvimento da pesquisa. O que define a define a pesquisa, quais suas marcas mais importantes? (1). a inovação: seja pelo tema, seja pela metodologia, seja pela descoberta de dificuldades novas, seja por levar a uma reformulação do saber anterior sobre a questão; (2). a durabilidade: a pesquisa não é servil a modismos e seu sentido não termina quando a moda acadêmica acabar porque não nasceu de uma moda; (3). a ideia de obra: a pesquisa não é um fragmento isolado de ideias que não terão sequência, mas cria passos para trabalhos seguintes, do próprio pesquisador ou de outros, sejam seus orientandos, sejam os participantes de mesmo grupo ou setor de pesquisa; existe obra quando há continuidade de preocupações e investigações, quando há retomada do trabalho de alguém por um outro, e quando se forma uma tradição de pensamento na área; (4). dar a pensar: a pesquisa faz com que novas questões conexas, paralelas ou do mesmo campo possam ser pensadas, mesmo que não tenham sido trabalhadas pelo próprio pesquisador; ou que questões já existentes, conexas, paralelas ou do mesmo campo possam ser percebidas de maneira diferente, suscitando um novo trabalho de pensamento por parte de outros pesquisadores; (5). significado social, político ou econômico: a pesquisa alcança receptores extra-acadêmicos para os quais o trabalho passa a ser referência de ação, seja porque leva à ideia de pesquisa aplicada, a ser feita por outros agentes, seja porque seus resultados são percebidos como direta ou indiretamente aplicáveis em diferentes tipos de ação; (6). autonomia: a pesquisa suscita efeitos para além do que pensara ou previra o pesquisador, mas o essencial é que tenha nascido de exigências próprias e internas ao pesquisador e ao seu campo de atividades, da necessidade intelectual e científica de pensar sobre um determinado problema, e não por determinação externa ao pesquisador (ainda que tenham sido outros sujeitos acadêmicos, sociais, políticos ou econômicos que possam ter despertado no pesquisador a necessidade e o interesse da pesquisa, esta só consegue tornar-se excelente, se nascida de uma exigência interna ao pensamento e à ação do próprio pesquisador); (7). articulação de duas lógicas diferentes, a lógica acadêmica e a lógica histórica (social, econômica, política): a pesquisa inovadora, duradoura, autônoma, que produz uma obra e uma tradição de pensamento e que suscita efeitos na ação de outros sujeitos é aquela que busca responder às questões colocadas pela experiência histórica e para as quais a experiência, como experiência, não possui respostas; em outras palavras, a qualidade de uma pesquisa se mede pela capacidade de enfrentar os problemas científicos, humanísticos e filosóficos postos pelas dificuldades da experiência de seu próprio tempo; quanto mais uma pesquisa é reflexão, investigação e resposta ao seu tempo, menos perecível e mais significativa ela é; (8). articulação entre o universal e o particular: a pesquisa excelente é aquela que, tratando de algo particular, o faz de tal maneira que seu alcance, seu sentido e seus efeitos tendam a ser universalizáveis; quanto menos genérica e quanto mais particular, maior possibilidade de possuir aspectos ou dimensões universais (por isso, e não para contagem de pontos, é que poderá vir a ser publicada e conhecida internacionalmente, quando o tempo dessa publicação surgir). Como instituição social, a universidade não pode evitar tensões entre sua dimensão acadêmica e sua dimensão sócio-política. A primeira tensão surge quando levamos em conta a diferença da temporalidade que rege a docência e a pesquisa e a que rege a política. A segunda tensão, quando levamos em consideração a alternância de governos, própria da democracia. Examinemos a primeira tensão. O tempo da política é o aqui e o agora. O planejamento político, mesmo quando distingue o curto, o médio e o longo prazos, é feito com um calendário completamente diferente do planejamento científico, pois o tempo da ação e o tempo do pensamento são completamente diferentes. Além disso, a ação política se realiza como tomada de posição e decisão acerca de conflitos, demandas, interesses, privilégios e direitos, devendo realizar-se como resposta à pluralidade de exigências sociais e econômicas simultâneas. A ação política democrática é, ao mesmo tempo, heterônoma e autônoma. Heterônoma, pois a origem da ação encontra-se fora dela, nos grupos e classes sociais que definem suas carências, necessidades, interesses, direitos e opções. Autônoma, pois a origem da decisão política encontra-se nos grupos que detêm o poder e que avaliam, segundo seus próprios critérios, a deliberação e a decisão. De todo modo, porém, a velocidade, a presteza da resposta política e o seu impacto simbólico são fundamentais, e o seu sentido só aparecerá muito tempo depois da ação realizada. Ao contrário, o tempo da docência e da pesquisa segue um outro padrão e uma outra lógica. Os anos de ensino e formação para a transmissão dos conhecimentos, a invenção de novas práticas de ensino, as alterações curriculares exigidas pelas consequências e inovações das pesquisas da área que está sendo ensinada e aprendida, as condições materiais de trabalho, bibliotecas e laboratórios exigem que o tempo da docência se constitua segundo sua lógica e sua necessidade internas específicas. Do lado da pesquisa, a preparação dos pesquisadores, a coleta de dados, as decisões metodológicas, as experiências e verificações, os ensaios e erros, a necessidade de refazer percursos já realizados, o retorno ao ponto zero, a recuperação de pesquisas anteriores nas novas, a mudança de paradigmas de pensamento, a descoberta de novos conceitos feitos em outros campos do saber (não diretamente vinculados ao campo pesquisado, mas com consequências diretas ou indiretas sobre o andamento e as conclusões de pesquisa), a exigência lógica de interrupções periódicas, a necessidade de discutir os passos efetuados e controlá-los, enfim, tudo aquilo que caracteriza a pesquisa científica – sem falarmos aqui nas condições materiais de sua possibilidade, como a inexistência de recursos para prosseguir numa linha que deverá ser abandonada por outra para a qual existam recursos materiais e humanos além de saber acumulado – faz com que o tempo científico e o tempo político sigam lógicas diferentes e padrões de ação diferentes. Assim como seria suicídio político pretender agir somente mediante ideias claras, distintas e absolutamente precisas, rigorosas e logicamente verdadeiras, também seria suicídio teórico pretender submeter o tempo da pesquisa ao da velocidade e do imediatismo da ação política. A política parece não ter tempo para adiantar-se aos resultados do seu próprio trabalho. É por isso, aliás, que a política não é uma ciência, embora exista uma ciência política que não é política propriamente dita (é uma ciência sobre a política e não da política). Essa diferença das temporalidades leva a supor que a dimensão sócio-política da universidade precisa subordinar-se à sua dimensão acadêmica, ou seja, a ação política só pode apropriar-se da pesquisa científica depois que esta estiver consolidada e não pode impor a ela outro ritmo que não o do pensamento. Isso leva a duas consequências. Em primeiro lugar, a de que os objetivos de uma política podem auxiliar materialmente o tempo da pesquisa, tornando-o mais rápido, graças a condições materiais da sua realização; em segundo, que a pesquisa científica pode orientar projetos políticos, na medida em que pode oferecer elementos de elucidação da própria ação política. A segunda tensão entre as duas dimensões decorre, como dissemos, da natureza da política democrática, fundada na alternância periódica dos ocupantes dos governos. Essa alternância, essencial à democracia, significa que, periodicamente, a sociedade pode decidir seja pela continuidade seja pela descontinuidade das políticas, isto é, de um projeto político ou de um conjunto de políticas públicas. A dimensão humanística e científica da universidade, porém, só pode realizar-se se houver continuidade dos projetos e programas de formação e pesquisa. A tensão entre as duas dimensões pode ser superada na medida em que a universidade se engaje em políticas de longo prazo que não estejam submetidas ao tempo descontínuo da política estatal. 4. Inspirando-me em Claude Lefort, quero concluir falando de nosso trabalho, isto é, da obra de pensamento como trabalho. Imersa numa história, a obra de pensamento inaugura uma nova história, abre um campo de pensamento inédito graças às criticas das representações instituídas, que obscurecem o presente e o porvir. Mas esse ato inaugural tem como solo um estado radical de não-saber. É como ausência de saber e de ação que o presente suscita a obra, cujo trabalho institui saber e ação. Com efeito, afirmar que a obra de pensamento é um trabalho intelectual significa que há uma matéria a ser transformada pela reflexão. Essa matéria é a experiência imediata e o trabalho da obra consiste em desfazer a suposta positividade dessa matéria, descortinando as questões que ela suscita e é incapaz de responder. O trabalho da obra começa quando revela o sono em que está mergulhada a experiência imediata, quando a desmente e a desmistifica, obrigando-a a pensar-se e, ao fazê-lo, conduzi-la a reconhecer-se como necessária e ilusória. Interpretar o presente é interrogá-lo para desfazer sua aparência, isto é, sua positividade e, com ela, a positividade atribuída tanto à imagem fixa do passado quanto um cálculo apaziguador do futuro. Assim, a articulação entre saber e não-saber, que inaugura a obra como trabalho da reflexão, inaugura também a possibilidade de interrogar um outro trabalho, nascido do primeiro, qual seja, o da transformação do presente. Trabalho da obra: maneira de alcançar a obra em seu ponto mais obscuro nas articulações entre teoria e prática, nas dobras da historicidade. Claude Lefort retoma uma expressão cunhada pelo filósofo napolitano, Vico, a “mente heroica”, retomada por Michelêt como “heroísmo do pensamento”. Essas expressões surgem “para celebrar o risco de uma busca sem modelos, liberta da autoridade do saber estabelecido, muito apropriada para reivindicar o desejo desmedido de pensar para além da separação das disciplinas do conhecimento, em busca da verdade (…) para criar, fazer surgir, pelo exercício de um direito vertiginoso do pensamento, da palavra, a obra em que advém o sentido (…) quando se assume o risco interminável do pensamento, da palavra ou da ação” [2]. Exercício e dignidade heroica do pensamento: este é nosso lugar na luta contra a covardia, a crueldade, a mentira e o cinismo. * Marilena Chaui é Professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Em defesa da educação pública, gratuita e democrática (Autêntica). * Palestra proferida na abertura do Segundo Congresso Virtual da UFBA, em 22 de fevereiro de 2021. Notas [1] Hannah Arendt Crises da república. São Paulo, Perspectiva, 1973, p. 9. [2] C.Lefort Écrire à l’epreuve du polítique. Calman-Lévy, Paris, 1992. |
Brasil à beira do colapso do sistema de saúde Posted: 28 Feb 2021 06:31 AM PST Por Gabriel Valery, na Rede Brasil Atual: O Brasil registrou 1.337 mortos pela covid-19 nas últimas 24 horas. A semana se encaminha para ser a de maior número de vítimas do novo coronavírus desde o primeiro contágio no país, no final de fevereiro de 2020. O vírus segue com disseminação fora de controle levando o Brasil ao colapso do sistema de saúde. A média móvel diária de mortes, calculada em sete dias, está em seu patamar mais alto: 1.153. Em relação ao número de infectados, o Brasil soma 10.455.630, com acréscimo de 65.169 no último período. A curva epidemiológica de contágio mantém-se em nível mais elevado do que na primeira onda de impacto da covid-19, registrada entre junho e setembro. Enquanto isso o país permanece sem ações em âmbito federal para controle da doença. E também vacina em ritmo muito lento. ![]() Curvas epidemiológicas médias de novos casos e mortes diárias. Fonte: Conass De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Brasil chegou hoje (26) ao seu pior patamar. O Boletim Observatório Covid-19 revela que o país tem a maior ocupação de UTIs da história; mais de 80%. O percentual de leitos com pacientes passa dos 90% no Amazonas (94,6%), Ceará (92,2%), Paraná (91,9%), Rondônia (97,1%) e Santa Catarina (93,4%). Entre 80% e 90%, estão Acre (88,7%), Distrito Federal (87%), Goiás (89,2%), Pernambuco (85%), Rio Grande do Norte (81,4%), Rio Grande do Sul (83,6%) e Roraima (82,2%). “A gravidade deste cenário não pode ser naturalizada e nem tratada como um novo normal. Mais do que nunca urge combinar medidas amplas e envolvendo todos os setores da sociedade e integradas nos diferentes níveis de governo”, afirma o boletim. Mentiras e desinformação No mesmo dia em que o país registrou mais mortos pela covid-19, chegando a mais de 251 mil óbitos, o presidente Jair Bolsonaro, em uma live, voltou a espalhar fake news e desinformação. Ele tratou uma pesquisa realizada na internet como se fosse um estudo de uma universidade alemã, para afirmar que máscaras fazem mal à saúde. A posição dele diverge do consenso mundial da comunidade científica. Diante disso, o presidente figurou durante o dia de hoje entre os assuntos mais comentados das redes sociais com a hashtag #BolsonaroGenocida. Para o epidemiologista da Fiocruz Amazonas Jesem Orellana, o momento é de lamento e preocupação. “A Fiocruz reconhece que o sistema de saúde do Brasil encontra-se neste momento próximo ao colapso”, disse, em entrevista para o programa Bom pra Todos, da TVT. “Temos cada vez mais claro que se não afastarmos o presidente da República e seu ministro incompetente vamos seguir para o desconhecido. Não temos ideia do que vai acontecer. Estamos em um cenário trágico com semanas e semanas com a média móvel acima de mil e quebrando recorde de mortes diárias”, completou O descontrole do surto no país e a realidade do número acentuado de vítimas e novos casos diários indica que o futuro próximo seguirá trágico. “As próximas semanas vão ser muito difíceis. Principalmente nas grandes metrópoles com o aumento significativo das internações hospitalares e ameaças de colapso. Seguindo o curso do histórico da doença, temos mais pelo menos umas três ou quatro semanas dramáticas. Se não implementarmos medidas de contenção teremos um prolongamento do drama por mais semanas e meses. Não sabemos aonde vamos parar”, disse Jesem. 2021 perdido As atitudes do governo Bolsonaro estão entre as principais razões para o Brasil ser o segundo país com mais mortos no mundo. E viver a aceleração da doença, caminhando para o colapso do sistema de Saúde, enquanto o resto do planeta aponta para a redução de casos e mortes. Jesem Orellana lembra que o presidente segue com sua postura de negar a ciência. “Não temos expectativas positivas em relação ao controle da pandemia. Escutamos o presidente dizendo que máscaras são prejudiciais à saúde”, disse o epidemiologista. “Enquanto isso nosso processo de imunização massiva já está perdido em 2021. É realmente muito preocupante a situação. Já perdemos a luta contra a covid-19 no primeiro semestre de 2021. Não há a menor chance de virarmos o jogo. Falhamos nas medidas de contenção, não há expectativas de medidas de isolamento e menos ainda de vacinação em massa”, completou. Grupo de risco A influência de Bolsonaro, que estimula aglomerações, nega o isolamento e as máscaras e já chegou a espalhar mentiras sobre perigos inexistentes das vacinas, é parte da construção de um grupo especial de risco. São pessoas que, levadas pelo discurso do presidente, negligenciam a própria saúde e de seus familiares. “Pior do que se contaminando, o grupo de risco do bolsonarismo está disseminando o coronavírus para pessoas de seu convívio. São pessoas que representam o pior dos fatores de risco”, diz o cientista. “Nesta segunda onda, muitas pessoas jovens têm morrido sem histórico de comorbidades. Boa parte dessas pessoas entre 25 e 50 anos são negacionistas que aderem à narrativa errática de não usar máscaras, promover aglomerações, negar a pandemia. Esse, sem nenhuma dúvida, é o pior de todos os grupos de risco: os negacionistas seguidores da narrativa do governo Bolsonaro. Eles nos levam a essa situação de hoje de descontrole”, completou. Vacinação O Brasil continua a registrar taxa de vacinação baixa. Foram administradas 7,8 milhões de doses. Com isso, apenas 2,92% da população recebeu a primeira dose da vacina contra a covid-19. Para Jesem, o processo de imunização completo no país está comprometido durante 2021. “Impossível porque erramos em 2020. Não firmamos os contratos necessários, conduzimos uma política externa diplomática desastrosa com nosso principal fornecedor, a China”, disse. |
A espetacularização da MP da Eletrobras Posted: 28 Feb 2021 06:25 AM PST Editorial do site Vermelho: Um dia depois de evocar o lema nacionalista “O Petróleo é Nosso” para justificar sua atabalhoada intercessão na Petrobras, Jair Bolsonaro declarou que seu governo quer “enxugar o Estado”. Expressão dessa reviravolta foi a medida provisória (MP) que visa acelerar a privatização do sistema Eletrobras – a proposta foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União e apresentada pelo próprio presidente ao Congresso Nacional na noite desta terça-feira(23). A agenda privatista integrava a lista das principais promessas da campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018 – e também seu atestado de alinhamento ao ultraliberalismo encarnado pelo economista Paulo Guedes. Porém, mais por incompetência do governo do que por falta de compromisso, o entreguismo andou num ritmo aquém do esperado pelos abutres do mercado. O burocrático processo de venda das “joias da Coroa”, como a Eletrobras e suas subsidiárias, pouco havia avançado. Daí a espetacularização com que Bolsonaro anunciou a MP da Eletrobras – que, em linhas gerais, autoriza o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a fazer estudos sobre a desestatização da empresa. Após as perdas de R$ 102 bilhões que a Petrobras acumulou em dois dias na Bolsa de Valores, o mercado – em especial o setor financeiro – exigia uma espécie de recompensa simbólica do governo. A ação presidencial na Petrobras, a despeito dos prejuízos, não pôs em risco a criminosa política de preços – Paridade de Preços Internacionais (PPI) –, que atrela o valor do combustível no Brasil às cotações do petróleo e do dólar no mercado internacional. Ainda assim, foi curioso observar o surpreendente discurso antiprivatista do presidente um dia antes da MP. “O petróleo é nosso? Ou é de um pequeno grupo no Brasil?”, esbravejou Bolsonaro na segunda-feira (21). Ora, seria louvável que o presidente acreditasse francamente que o Brasil deve ter soberania enérgica – e, por extensão, controle sobre as grandes empresas estatais ou mistas que lideram o setor. A heroica e massiva luta popular em defesa da Petrobras, à revelia das elites entreguistas do País, culminou na fundação, em 1953, sob o governo Getúlio Vargas, desta que viria a ser uma das maiores petrolíferas do mundo e uma das grandes fontes de orgulho nacional. A criação da Eletrobras, em 1962, por João Goulart, também obedeceu à mesma lógica. Incentivar o setor público na complexa, mas estratégica produção e distribuição de energia elétrica em escala nacional era um meio de persistir na batalha da soberania. A exemplo da Petrobras, a Eletrobras logo se firmou como a maior empresa de seu setor na América e uma das gigantes do mercado mundial. A companhia entrou na era da sociedade mista nos anos 1990, com capital privado – mas, ainda assim, tendo o Estado brasileiro como sócio majoritário, tal qual a Petrobras. A cantilena bolsonarista da segunda-feira poderia ser adaptada: afinal, a Eletrobras é nossa? Ou é de um pequeno grupo no Brasil? A crer no segundo discurso de Bolsonaro, dos brasileiros a Eletrobras não será mais. “Nós queremos, sim, enxugar o Estado, para que nossa economia possa dar a resposta que a sociedade precisa”, falou Bolsonaro à imprensa, usando o termo “sociedade” onde, na realidade, só cabia “mercado”, “investidores”, “setor financeiro”, “rentismo” ou outro verbete do gênero. Não à toa, até um expoente do liberalismo como o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), ex-presidente da Câmara Federal, tuitou que “MP da Eletrobras é pura enrolação”. No entanto, se a privatização da empresa vingar, conforme os planos da equipe econômica, liderada pelo banqueiro Paulo Guedes, a Eletrobras ficará nas mãos não de um “pequeno grupo no Brasil” – quem dera! Tudo indica que a companhia será entregue ao capital privado estrangeiro, representado tão-somente por uma das gigantes multinacionais do setor – as chamadas majors. No fim das contas, o que explica a estrepitosa contradição entre os dois discursos de Bolsonaro, em pouco mais de 24 horas, são as evidências de um governo caótico e perdido, que se enrola até mesmo quando procura forjar uma gestão a serviço dos rentistas. Nas palavras do deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), “Bolsonaro fez um teatro para entregar ao Congresso a privatização da Eletrobrás – uma ceninha para afagar Paulo Guedes, diante das humilhações constantes que tem sofrido”. Ainda assim, diante de uma “proposta antinacional e antipovo”, cabe aos congressistas, segundo Orlando, barrar a MP. “A privatização do setor elétrico deu em 15 dias de apagão no Amapá. Não admitimos isso para o Brasil! Além disso, essa aberração não passa no Congresso. Não deixaremos o Brasil no escuro, como ocorreu no Amapá.” |
STF, cúpula militar e o governo ilegítimo Posted: 28 Feb 2021 06:11 AM PST Por Jeferson Miola, em seu blog: No início de abril de 2018, a despeito do bombardeio semiótico promovido implacavelmente durante anos a fio pelo consórcio Globo-Lava Jato para criminalizar Lula, a unanimidade dos institutos de pesquisa prognosticava a vitória do ex-presidente já no 1º turno da eleição presidencial de outubro. Ficava claro que apesar do longo e metódico processo de devastação da reputação e da imagem do Lula, não haviam conseguido inviabilizá-lo eleitoralmente. Àquelas alturas, diante da certeza de que seria impossível derrotá-lo pela via eleitoral, decidiram então acelerar o arbítrio contra ele. A partir daí, a identidade estratégica entre a Lava Jato e a cúpula militar em torno do projeto antipetista de poder, que transcorria com paralelismo de ação, mas com convergência de propósitos, se cruza numa intersecção política que passou a ser sincronizada e coordenada. Sem a execução do “serviço” pela gangue de Curitiba chefiada por Moro; ou seja, sem a prisão farsesca do Lula, o plano da cúpula militar de assumir o poder por meio da eleição manipulada do Bolsonaro jamais se concretizaria. O general-conspirador Villas Bôas sempre expressou gratidão a Sérgio Moro, considerado por ele um “protagonista da cruzada contra a corrupção”, que se destacou “para que o ‘rio da História’ voltasse ao seu curso normal” [11/1/2019], referindo-se a um Brasil “livre do Lula”. No dia do Exército Brasileiro de 2017, Villas Bôas agraciou Moro com a condecoração da Ordem do Mérito Militar, a mais alta comenda do Exército. Uma “condecoração criada para galardoar militares, civis e instituições, nacionais ou estrangeiros, que tenham prestado serviços relevantes à nação brasileira, especialmente ao Exército Brasileiro“. O jogo já estava armado. No julgamento burlesco do TRF4 em 24 de janeiro de 2018 os desembargadores coincidiram, incrivelmente, até nas vírgulas dos votos; e, também, nos anos, meses, semanas, dias, horas e minutos da sentença do Lula. Ainda serão conhecidos, nas mensagens do Deltan, os bastidores daquela sessão excepcionalíssima do TRF4. O atropelo para perpetrar o atentado jurídico e manipular a eleição presidencial ficou escrachado na velocidade atípica dos trâmites judiciais subsequentes. Em 5 de abril de 2018, quando Moro decretou ilegalmente a prisão do Lula, o TRF4 sequer tinha publicado o acórdão da sentença, e tampouco julgado os embargos declaratórios. A sessão na qual o STF descumpriu a Constituição e negou a liberdade do Lula enquanto a sentença condenatória não tivesse transitado em julgado [CF, inciso LVII do artigo 5º], iniciou na tarde de 4 de abril, e terminou na 1ª hora da madrugada de 5 de abril. Às 17:31h daquele mesmo dia 5, entretanto, numa velocidade inusual para os padrões da justiça brasileira, e sem que o STF tivesse publicado o acórdão da decisão, o TRF4 oficiou Moro a determinar a “execução da pena do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. E, apenas 19 minutos depois, às 17:50h, num despacho de 4 páginas escrito com rapidez supersônica, Moro assinou eletronicamente a ordem de prisão sustentando que “Não cabem mais recursos com efeitos suspensivos junto ao Egrégio Tribunal Regional Federal da 4ª Região”. Como um Soberano absoluto, Moro ainda arrematou que “Hipotéticos embargos de declaração de embargos de declaração constituem apenas uma patologia protelatória e que deveria ser eliminada do mundo jurídico”. O emparedamento do STF pelo “Partido Militar” O famoso twitter do “Pinochet brasileiro” Villas Boas colocando o STF contra a parede para forçar a Suprema Corte a manter a prisão ilegal do Lula quando Moro a decretasse, saiu às 20:20h de 3 de abril de 2018, ainda a tempo de repercutir no Jornal Nacional da Globo. A ameaça foi feita, portanto, na véspera do julgamento do habeas corpus pelo STF. E, como confessou Villas Bôas, a decisão de fazê-la foi do conjunto do Alto-Comando do Exército Brasileiro, que atuou como “diretório político” do “Partido Militar”. Este é o episódio mais visível do garrote da cúpula militar no STF em 2018 para garantir a vitória do Bolsonaro naquela eleição fraudada pelo sequestro do Lula. Mas, além deste, outros eventos com menor carga de publicidade, mas nem por isso menos relevantes, foram fundamentais para o êxito da tutela e o desfecho do plano castrense. Já no curso da eleição, e com Lula preso desde 7 de abril, uma matéria muito insinuante no site da Marinha em 3 de setembro de 2018 disse que “O ministro Dias Toffoli, do STF, está prestes a assumir o comando da mais alta corte do país e começa aos poucos montar a sua equipe de assessoria. Uma das ações do ministro tem sido sinalizar com as Forças Armadas. Ele teria entrado em contato com o Comandante-Geral do Exército, General Eduardo Villas Bôas, e pedido uma indicação para compor a sua assessoria pessoal. Conforme as informações, o General atendeu o ministro e apontou um nome de confiança”. A matéria da Marinha “antevia” que “Em seu gabinete, o ministro encontrará vários assuntos polêmicos para resolver, um deles, por exemplo, é a prisão após a condenação em segunda instância”. Numa mensagem subliminar, o site da Marinha disse que “Os procuradores da Operação Lava Jato e o juiz federal Sérgio Moro são defensores da prisão em segunda instância e, para eles, mudar a jurisprudência do tribunal, seria retroceder no combate à corrupção”. O site G1 noticiou, em seguida, que “O nome que Villas Bôas indicou é o do general de Exército Fernando Azevedo e Silva”. Na ocasião, o hoje ministro da Defesa desempenhava funções executivas e de comando na campanha do Bolsonaro à presidência. Reportagem do Estadão de 7 de outubro de 2018 dizia que “Exército vê em Toffoli garantia da eleição”. De acordo com o jornal, “O ministro deu aos militares três ‘sinais importantes’. Um integrante do Alto-Comando os enumerou: a decisão de não pôr em votação a prisão em segunda instância, o veto à entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva, preso e condenado pela Lava Jato, e o pronunciamento na Faculdade de Direito do Largo São Francisco”, no qual o revisionista Toffoli disse que “Hoje, não me refiro nem mais a golpe nem a revolução. Me refiro a movimento de 1964”. Em outro discurso, composto como música para os ouvidos castrenses entre os 2 turnos da eleição, Toffoli declarou: “Nunca mais fascismo; nunca mais comunismo”. Episódio citado no livro Os Onze, de Felipe Recondo e Luiz Weber, sugere que o STF estava com a faca no pescoço. No dia 23 de outubro de 2018, depois da reunião do TSE que fechou os olhos para os crimes eleitorais da chapa Bolsonaro-Mourão, que deveria ter sido cassada – disseminação de fake news via WhatsApp financiada por empresários corruptos com caixa 2 – Toffoli “descreveu um cenário sombrio” [pág. 16] para colegas da Suprema Corte com assento no TSE. E, numa espécie de rendição à intimidação armada, Toffoli “lembrou que o então comandante do Exército, general Villas Bôas, tinha 300 mil homens armados que majoritariamente apoiavam a candidatura de Jair Bolsonaro” [pág. 17]. Os políticos fardados do “Partido Militar” davam mostras ostensivas de pressão indevida. O general da reserva Luiz Gonzaga Schroeder Lessa ameaçou que “se o Supremo Tribunal Federal deixar o ex-presidente Lula solto, estará agindo como indutor da violência entre os brasileiros, propagando a luta fratricida, em vez de amenizá-la”. Mesmo quando Villas Bôas confessou, em novembro de 2018, que pretendia intervir caso o STF concedesse o habeas corpus a Lula, Toffoli manteve-se em cúmplice silêncio. Toffoli cumpriu, com isso, o rito completo do batismo de adesão à escalada militar. Além do revisionismo histórico, cassou a liberdade de imprensa e de expressão para silenciar Lula na eleição e, mais decisivo, manteve Lula incomunicável e amordaçado, como sequestrado de guerra da Lava Jato e dos militares na “Guantánamo brasileira” em Curitiba. Intimidação do STF originou governo ilegítimo Este processo de intimidação e de tutela militar sobre o STF para manipular a eleição de 2018 por meio do impedimento da candidatura do ex-presidente Lula resultou na vitória manipulada do Bolsonaro. Estamos diante de um governo ilegítimo, que é nominalmente exercido por Bolsonaro e seu clã, mas que, em realidade, é comandado pelo “Partido Militar”. A soberania popular está com um fuzil apontado na sua direção. |
Receita simples para restaurar a democracia Posted: 28 Feb 2021 06:07 AM PST Por Marcos Coimbra, no site Brasil-247: É impossível que alguém normal esteja satisfeito com o Brasil. Excluídos, é claro, oportunistas e picaretas, como o núcleo bolsonarista e os pelotões de brucutus, que se dão bem no horror em que os demais vivemos. No espaço de dois anos, retrocedemos em praticamente tudo, o suficiente para deixarmos de ser um país simpático aos olhos do mundo e nos tornarmos párias, assolados pela doença e a miséria. Só há uma saída, com a qual todos capazes de enxergar um palmo à frente do nariz deveriam concordar: independentemente do que cada um quer, independente de preferências por candidatos, o Brasil precisa fazer uma eleição de verdade em 2022. Sem milicos metendo a mão, sem juízes achando que devem guiar o povo, sem empresários pagando para ter o presidente, sem bispos leiloando seus rebanhos. Sem artimanhas e mentiradas que desvirtuem o processo de escolha, sem manchetes fabricadas na última hora. Uma eleição que respeite o direito do povo votar em quem quiser. Nossa democracia está no fundo de um buraco. Tão mal ou pior que nos piores momentos de nossa história. E lembremos que a experiência brasileira é especialmente ruim no que se refere à saúde das instituições democráticas. De golpe em golpe, ditadura em ditadura, restrições em restrições à expressão da vontade da maioria, a democracia sempre foi exceção e não regra no Brasil. De 1964 em diante, foram vinte anos de ditadura. Cinco generais se sucederam na presidência, o suficiente para alinhar o País com qualquer republiqueta do Terceiro Mundo. Os militares gostavam de fingir respeito às leis, preservando arremedos de normalidade, mas era só para enganar quem queria ser enganado. Fizemos até “eleições” para escolher o general seguinte, sempre, é claro, de maneira indireta, através de Congressos expurgados de parlamentares inconvenientes. Comparando a situação de hoje com a que tivemos depois do golpe de 64, estamos melhor em alguns aspectos, mas conseguimos piorar em, pelo menos, três. Em primeiro lugar, chegamos aonde estamos através de eleições aparentemente normais e não de um quartelada, como em abril de 1964, com soldados atacando a população a cassetete. Aquele foi um golpe às claras, o que, de um lado, ampliou a autonomia dos golpistas para impor-se, mas, de outro, facilitou a compreensão coletiva do que estava ocorrendo, escancarando a ditadura. O caminho através do qual desembocamos no militarismo de agora foi mais velado. Sem colocar tanques na rua, com um mero tuite prontamente atendido pelo Supremo Tribunal Federal, o Exército desfigurou o processo eleitoral de 2018. Sem alarde, os generais reassumiram um protagonismo incompatível com a democracia, embora consentâneo com seu golpismo atávico. Mostraram que o único que aprenderam com a redemocratização foi a ser dissimulados. Hoje, esse golpe militar discreto fornece uma tintura de legitimidade aos descalabros do capitão Bolsonaro, como se ele fosse expressão da “vontade popular” (o que não deixa de ser semelhante ao que diziam os generais de 64 da ditadura que implantaram). Entre outras coisas, faz com que pensemos que seu mandato é análogo ao dos antecessores, esquecendo da história real da eleição de 2018, desmoralizada por intervenções e trapaças. A segunda piora, em relação à situação pós-1964, é a ausência de projeto nacional no militarismo atual. Um anticomunismo de opereta e abundantes irracionalidades terraplanistas somente disfarçam o apetite dos generais por cargos e vantagens. Em termos de competência administrativa, são de chorar. A terceira piora é no material humano: até Costa e Silva, com sua burrice asinina e João Figueiredo, com sua grossura equina, parecem titãs frente ao ridículo Bolsonaro. No resto, em muitas coisas, estamos parecidos com o que fomos depois do golpe de 1964. A mesma turma controla a vida politica, a Arena de ontem como o Centrão de hoje, igualmente mancomunada com militares metidos a espertos. A mesma elite econômica, com os projetos e o imediatismo de sempre, quer o mesmo: suprimir as melhorias estendidas aos trabalhadores durante a democracia, apossar-se do patrimônio público e perfilar-se diante do capitalismo global. A mesma grande imprensa continua a pretender ser a única voz, calando qualquer outra. As corporações do Estado não mudaram: sua verdadeira intenção é manter poder e privilégios, vantagens e mutretas, as pensões vitalícias para filhas solteiras. Ou fazemos uma eleição de verdade em novembro de 2022 ou nos condenamos a permanecer na última fila do desenvolvimento global. Presos ao passado e motivo de piada no mundo inteiro. |
Guedes perde também o presidente do BB Posted: 28 Feb 2021 06:04 AM PST Por Fernando Brito, em seu blog: A saída de André Brandão da presidência do Banco do Brasil bem merece o nome de “o último a sair apaga a luz”. Faz mais de um mês que Bolsonaro lançava farpas em sua direção, alegadamente por seus planos de demitir funcionários e fechar agências em pequenas cidades, o que estava gerando reclamação dos novos “donos do pedaço” no Governo: o Centrão. Defendido por Paulo Guedes e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, Brandão estava sendo segurado no posto para não se dar chance de que fosse ocupado por alguém mais flexível às indicações políticas para as estruturas do Banco. E menos afeito às politicagens e submissões ao “Mito”, como é o presidente da caixa Econômica, Pedro Guimarães, que chega a ser presença constante nas lives presidenciais. A situação do mercado – que já estava ruim, com Petrobras descendo às perdas gigantes da 2a. feira, o próprio BB a perdas ainda maiores e o dólar fechando a R$ 5,60 – deve sofrer nova piora depois do final de semana. Até porque não se poderá continuar fechando os olhos para a necessidade de um forte grau de retração das atividades econômicas em razão do agravamento da pandemia. Paulo Guedes, “prestigiado” por Bolsonaro com “privatizações” que não sairão tão cedo – e se saírem – está ficando em total solidão e não se surpreenda se, semana que vem, um ou mais de seus secretários na Economia pedirem também demissão. Antes que se apague a luz, já bruxuleante, do antigo Posto Ipiranga. |
Bolsonaro sabota vacinas e libera armas Posted: 27 Feb 2021 12:36 PM PST |
Bolsonaro tenta se reaproximar de militares Posted: 27 Feb 2021 12:35 PM PST |
Alta da gasolina e do diesel e a Petrobras Posted: 27 Feb 2021 12:23 PM PST |
O governo da queimada e da destruição Posted: 27 Feb 2021 12:21 PM PST |
Moro: A construção de um juiz acima da lei Posted: 27 Feb 2021 12:19 PM PST |
Preços e privatização fatiada da Petrobras Posted: 27 Feb 2021 12:14 PM PST |
O primeiro ato de guerra de Joe Biden Posted: 27 Feb 2021 12:12 PM PST |
Aprovação de Bolsonaro segue ladeira abaixo Posted: 27 Feb 2021 12:10 PM PST |
Brasil em estado gravíssimo pela Covid-19 Posted: 27 Feb 2021 12:08 PM PST |
Auxílio emergencial e a chantagem de Guedes Posted: 27 Feb 2021 12:05 PM PST |
Fiat enriqueceu com espionagem na ditadura Posted: 27 Feb 2021 11:58 AM PST |
Posted: 27 Feb 2021 11:56 AM PST |
Show de mortes por Covid no Brasil do BBB Posted: 27 Feb 2021 11:53 AM PST |
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