Qua 31/03/21 18:36
Altamiro Borges
Altamiro Borges |
- Nas cordas, Bolsonaro tenta fuga pra frente
- Bolsonaro esticou demais a corda
- O Brasil que poderia ter sido, e será
- A crise do cotovelo e a questão militar
- Bolsonaro fecha o cerco
- Bolsonarismo derrete e arma barricadas
- O governo mais militarizado desde 1985
- Acuado, Bolsonaro vai até se vacinar?
- Big Brother Brasília: quem será o próximo?
- Crise militar e o desespero de Bolsonaro
- O auxílio emergencial de R$ 150,00
- Um momento decisivo para o Exército
- Bolsonaro está preparando o golpe?
- Bolsonaro em guerra com as Forças Armadas?
- Estado de Sítio no Brasil?
- As aventuras antidemocráticas de Bolsonaro
- O fim do capitão ficou mais próximo
- Bolsonaro e o Exército para chamar de seu
- Cavalo de Troia pode deixar militares a pé
- A perigosa cartada do desespero
- O Partido Militar e a mudança ministerial
- Acuado, Bolsonaro entra em pânico
- Brasília vive terremoto de especulações
- A diplomacia desastrosa de Bolsonaro
Nas cordas, Bolsonaro tenta fuga pra frente Posted: 31 Mar 2021 12:51 PM PDT Por Tereza Cruvinel, no site Brasil-247: Isolado em seu labirinto, soterrado por 300 mil mortos e um estrondoso fracasso econômico e gerencial, Bolsonaro empreendeu uma “fuga para a frente” com o sacolejão ministerial desta segunda-feira. Rendeu-se mais uma vez ao Centrão sem contentá-lo e semeou uma crise militar com a demissão do general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa, que levará à trocas dos comandantes das três armas. Agora há uma trincadura em sua relação com os militares, e isso só fará aumentar as tensões. O safanão que ele deu no tabuleiro para mostrar-se dono da agenda e da iniciativa não trará qualquer alívio para a grande agrura da população, que anseia por vacina, emprego e renda. Serviu, porém, para nos mostrar que ele não dispõe do conjunto das Forças Armadas para o autogolpe que continua desejando, embora elas também não tenham coesão para liderar ou somar-se a um movimento para encerrar o trágico experimento que é seu governo. Entre as seis mudanças que Bolsonaro fez, obviamente a mais importante foi a demissão do ministro da Defesa, que embora tenha subido ao helicóptero com ele no ano passado para sobrevoar manifestação antidemocrática, nos últimos meses refugou pressões para subordinar as Forças Armadas a seus intentos autoritários, começando com a recusa em substituir o comandante do Exército, Edson Pujol. Teria se oposto a uma proposta de decretação de estado de sítio mas ainda faltam evidências de que isso teria ocorrido. Azevedo, que foi assessor do ministro Toffoli, ligou ontem para o atual presidente do STF, Luis Fux, assegurando que as Forças Armadas não endossarão qualquer aventura golpista. Ainda que não fale por todos, deve saber por quem fala. E continuará sendo um general influente. O novo ministro, Braga Neto, deve trocar os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Segundo fonte militar que ouvi, na reunião que tiveram eles estavam dispostos a fazer isso ontem mesmo, mas teria havido pactuação no sentido de ficarem nos cargos até que a substituição venha como decorrência normal da troca do ministro. Até onde a vista alcança, no curto prazo não existem, portanto, condições nem para um “fechamento” do regime, via autogolpe, nem para acreditarmos que Bolsonaro vá cair logo, seja por impeachment ou qualquer via. Essa é a anomia que torna a situação brasileira tão desesperadora: nenhum bloco político tem força e organicidade para impor uma saída. Nem a oposição (para além da esquerda, englobando hoje também a elite econômica e direita liberal) tem força para derrubar o governo, nem o governo tem condições de sair do labirinto e passar a responder aos desafios, começando pela escandalosa perda de controle sobre a pandemia. Apesar do desastre, Bolsonaro ainda conta com o bolsão radical e com apoio popular não desprezível, embora minguante. Se a demissão de Azevedo foi uma jogada arriscada para enquadrar e sujeitar os militares a seus desígnios, para intimidar o país e calar as instituições e os opositores, as outras trocas tiveram motivações diversas, e de resultados incertos. O Centrão, e particularmente o Senado, foi contemplado com a cabeça do chanceler Ernesto Araújo, que já vai tarde. Já a nomeação da deputada Flávia Arruda para a Secretaria de Governo/articulação política agrada mais ao PL de Valdemar Costa Neto do que ao Centrão mesmo. Ademais, a pasta não tem verbas nem obras, e existe para atender a interesses do governo. Ocioso dizer que nada mais “velha política” do que essa escolha. O general Ramos, que o Congresso não aguentava mais, vai para a vaga que se abre na Casa Civil com o deslocamento de Braga Neto para fazer o que sabe: servir ao velho amigo no que for preciso. A demissão de José Levi fica na conta de uma das leis de Bolsonaro: auxiliar seu tem que dizer amém sempre. Levi vinha recusando algumas tarefas. Não assinou, por exemplo, aquela ação no STF contra governadores que adotaram o toque de recolher. Estado de sítio, segundo Bolsonaro. Volta ao cargo quem bem atende à exigência de servilismo, o ministro da Justiça André Mendonça, que se destacou no cargo pela perseguição a opositores do governo. Uma incógnita é o desempenho do embaixador Carlos França no Itamaraty. É verdade que ele nunca chefiou embaixada e nem mesmo departamento. Mas havia alívio ontem na casa. Muito pior teria sido a escolha do bolsonarista militante Luis Fernando Serra, o que se dedica em Paris a brigar com os jornais em defesa de Bolsonaro, ou a de um militar, o almirante Flavio Rocha. França hoje chefia o cerimonial do Planalto mas é da carreira, conhece a casa, é moderado e inteligente o bastante para, pelo menos, não seguir o itinerário destrutivo de Araújo. A ver. Mas é para os quarteis que ficaremos todos olhando nesta semana de acontecimentos graves que coincidem com o aniversário do golpe de 1964. |
Bolsonaro esticou demais a corda Posted: 31 Mar 2021 12:45 PM PDT Por Luis Felipe Miguel O único nome de algum peso nas nomeações de ontem é o novo ministro da Justiça, reforço à ala mais truculenta do governo. Bolsonaro esticou demais a corda e gerou a crise que culminou na dança das cadeiras de ontem - e que prossegue hoje, com os comandantes das três armas colocando os cargos à disposição. Foi incapaz de manter a fachada de civilidade e racionalidade, que é tudo que "as instituições" esperam dele e de seu governo. Seria talvez difícil para Ernesto Araújo se "reinventar" como um sujeito equilibrado, mas Bolsonaro poderia tê-lo substituído antes, sem esperar que a situação se tornasse explosiva. Mas para isso Bolsonaro também teria que se reinventar - e ele parece incapaz disso. Está preso à persona política que sempre cultivou. Entre o mito e seus seguidores destacados há uma notável continuidade. Do assessor presidencial que faz gesto supremacista no Senado à deputada que incita motins de policiais militares e daí ao presidente que bravateia que "seu exército" vai enquadrar governadores e prefeitos, vemos uma perfeita unidade de comportamento. O bolsonarismo precisa da ameaça, da provocação, da fanfarronada para sobreviver. Sem isso, não sobra nada. Circulam boatos de golpe, mas Bolsonaro enfraqueceu sua posição junto à cúpula das Forças Armadas - e não tem condições de liderar um levante do baixo oficialato, por mais que, neste setor, o apoio que recebe seja grande. O afastamento de parte importante do generalato também é um possível obstáculo à sua estratégia de usar as polícias militares para pressionar os governadores. A desastrada reação de Bia Kicis ao incidente na Bahia também não serviu a este objetivo. Mas Bolsonaro, é bom lembrar, se rende mas não recua. Retirou Araújo e, impossibilitado de colocar outro alucinado no cargo, escolheu um diplomata imaturo e inexpressivo, que dificilmente terá força ou habilidade para dar rumo ao Itamarati. Como feito antes nos ministérios da Educação e da Saúde. É um governo que promove deliberadamente as piores nulidades para os cargos mais importantes. Da mesma forma, o aceno ao Centrão se deu pela nomeação de uma deputada inexperiente e com pouco peso político. O único nome de algum peso nas nomeações de ontem é o novo ministro da Justiça, reforço à ala mais truculenta do governo. Já está claro há muito tempo que Bolsonaro é incapaz de governar o Brasil. Há tempos ele mesmo já desistiu da tarefa; usa o poder de seu cargo basicamente para impedir que outros governem em seu lugar. E, no meio do tumulto, os grupos aninhados em seu governo aproveitam para levar adiante seus projetos de destruição nacional. O único objetivo de Bolsonaro é chegar ao ano que vem e conquistar um novo mandato - seja para, com a força oferecida pela reeleição, encaminhar uma guinada abertamente fascista, seja apenas para garantir mais algum tempo da imunidade de que ele e seus filhos tanto precisam. Espertamente, produz uma falsa polarização com João Doria, que lhe é favorável em três dimensões. Primeiro, porque lhe permite esquivar-se - por enquanto - do confronto com seu verdadeiro antagonista, o ex-presidente Lula. Segundo, porque Doria é um bom adversário: é incompetente. Um marqueteiro tão ostensivo e tão fajuto que é capaz de estragar até conquistas exuberantes como a vacina do Butantã. Um estrategista político tão inábil que seu maior feito é ter ampliado a oposição a seu nome dentro de seu próprio partido. Tão viciado no oportunismo que até agora não conseguiu se decidir se vai vestir integralmente o figurino do mítico "centro" ou disputar com Bolsonaro a faixa da extrema-direita. Terceiro, porque, ao alimentar a hostilidade de sua base ao governador paulista, Bolsonaro garante que esses votos, essenciais para uma vitória da direita, serão só seus. Ele quer, em suma, reeditar a "escolha muito difícil" em 2022 e recolher, uma vez mais, o apoio envergonhado, mas nem por isso menos entusiástico, de todas as nossas classes dominantes. Essas são as preocupações de Bolsonaro. Enquanto isso, o Brasil corre para os 400 mil mortos. Uma reportagem no jornal de hoje revela que, no município de São Paulo, vans de transporte escolar serão mobilizadas para levar os corpos ao cemitério. Em vez de estudantes, cadáveres. Metáfora perfeita para um país que optou pela ignorância, pela destruição de seu próprio futuro e pela morte. |
O Brasil que poderia ter sido, e será Posted: 31 Mar 2021 09:03 AM PDT Enviado por Silvio Tendler O Brasil que poderia ser e será Abaixo a morte. Viva a vida! Jair Messias Bolsonaro, o genocida, defende o que de pior aconteceu durante a ditadura que teve início em 1964 e durou 21 anos: sequestros, prisões, tortura, estupros, assassinatos. Sabotou as vacinas, não quis comprá-las, incentivou a população a não usar máscaras e a contaminar-se. Este genocida é o maior responsável por mais de 320 mil mortes, mais de 12 milhões de contaminados, unidades de saúde e UTIs abarrotadas, pessoas morrendo nas filas dos hospitais, profissionais de saúde esgotados, caos no sistema. Hoje, 31 de março, 57 anos após o golpe de 64, o genocida orquestrou mais uma de suas provocações: convocou para comemoração nos quartéis. Generais apijamados, por falta do que fazer, fizeram coro. Na Ordem do Dia, o ministro da Defesa recém-empossado, celebrou o golpe que impediu as reformas agrária, urbana, tributária e política que modernizariam o Brasil. O projeto necrófilo do capitão é incendiar o país pelas mãos de seus milicianos, militares insubordinados e paramilitares armados para o caos, associado ao saque das riquezas nacionais e à concentração do resultado do trabalho de todos nas mãos de poucos, bem como o desmantelamento do Estado a serviço do “deus mercado”. Contra esse projeto de morte, VACINA e RENDA DIGNA para todos. VIDA ACIMA DE TUDO! Assinam esse manifesto: Adair Rocha Adriana Castelo Branco Afonso José De Sousa Alan Melo Marinho De Albuquerque Alberto Schprejer Alcyr Cavalcanti Alexandre Costa Alexandre Medeiros Aline Jardim Aluizio Palmar Américo Galvão Ana Maria Muller Ana Maria Nogueira Ana Rosa Tendler André Motta Lima Antonio Batalha Antonio Oséas Ari Roitman Armando De Negri Filho Aurelina De Jesus Cruz Carias Aurelio Braga Da Cunha Bárbara Da Silva Jardim Beatriz Bomfim Beatriz Golzi Braga Bete Mendes Bispo Clóvis Erly Rodrigues Bolívar Meirelles Carlos Antonio Costa Carlos Franco Carlos Minc Cecília Magalhães Celia Eyer De Araújo Celso Carlos Puttkammer Dos Santos Celso Pinto Carias Celso Schröder Celso Vicenzi Cesar Kuzma Christiane Montes Ramírez Christina Tavares Cid Benjamin Clarisse Fukelman Cláudia Fiani Braga Cristina Borges Cristina Pereira Cristina Serra Custódio Coimbra Cynthia Cristina Dos Santos Daniel Dreifuss Daniel Israel Daniela Acácia Fusari David Albagli Gorodicht Dayse De Paula Silva Denise Assis Deputado Paulo Pimenta Diego Felipe De Souza Queiroz Dom Mauro Morelli Ecila Moreira De Meneses Edgard Aparecido De Moura Elane Macel Eleonora Bettiol Prado Da Silva Eliane Lobato Erika Gloria R. Dos Santos Esther Kuperman Fabiana Fersasi Fabiana Ubinha Almeida Fabio Nin Felix Valente Fernando Wutman Fichel Davit Flavia Cavalcanti Flávio Wanderlei Lara Francisca Zaida De Souza Almeida Francisco De Assis Da Silva (Bispo Anglicano Em Santa Maria/Rs) Frei Sinivaldo Tavares Gilberto Kaplan Gitel Bucaresky Glória Maria Teles Graça Salgado Haik Khatchirian Helena Bocayuva Hélio Doyle Henrique Pizzolato Inês Patrício Ingrid Pozzobon Ique Gazzola Itala Maduell Vieira Janete Julio Martins Jefferson De Albuquerque Jr. João Lopes Salgado João Salgado Braga Jones Raposo De Freitas Jorge Fernandes Da Silveira José Batista de Macedo José Beltrame Jose Bruno Fontes Soares José Bruno Fontes Soares José Bulcão José Carlos Sebe Bom Meihy José Edil De Lima Alves José Guilherme Castro José Jorge Guedes De Camargo Juca Kfouri Jucemara Beltrame Jun Nakabayashi Katia Maria Azevedo Caldeira Pires Assina Kátia Alexandra Morelli Léa Maria Aarão Reis Leandro Bierhals Leneide Duarte-Plon Leyla Simões Lidia Fabricio Ligia Jobim Lilian Fontes Lizt Vieira Lucas Sória Riccordi Luciana Barros Luciana Conti Luciano Guilherme Barbosa Dos Santos Luciene Alcinda De Medeiros Luiz Achutti Luiz Cláudio Cunha Luiz Otávio Braga Magali Cunha Maister Freitas Da Silva Malena Monteiro Marcelo Mazeta Lucas Marcia Fiani Marcia Menezes Márcia Tiburi Marco Antônio Franzmann Schuster Marco Aurélio Nunes Batista Marco Schuster Maria Amelia Clemente Coelho Maria Aparecida Rogado Maria Claudia Badan Ribeiro Maria Cláudia Veiga Soares Carvalho Maria De Fátima Oliveira Maria Helena Malta Maria Luiza De C.Guimarães Maria Luiza De Carvalho Maria Luiza Franco Busse Maria Rita Marques De Oliveira Maria Rita Pinheiro De Oliveira Marijane Lisboa Marília Guimarães Marília Rothier Mário Victor Marivani De Oliveira De Aquino Pereira Martha Pozzueco Mauro Abdon Gabriel Mauro Band Miguel Paiva Moema Salgado Mogli Veiga Mônica Penna Sattamini De Arruda Nádia Ferreira Nelson Ricardo Mendes Lopes Nelson Sena Newton De Menezes Albuquerque Nilton Bahlis Dos Santos Nydia Natali Ondina Fachel Leal Oswaldo Pereira Padre Carlos Antonio De Araujo Padre Dênis Cândido Da Silva Padre Júlio Lancellotti Padre Manoel José De Godoy Pastor Claudio Ribeiro Pastor Edson Fernando De Almeida Pastor Levi Araujo Pastor Metodista Melchias Silva Patrick Granja Paulina Roitman Paulo Cunha Paulo De Tarso Riccordi Paulo Magalhães Paulo Muzell Paulo Pio Rafael Guimarães Rafael Sales Pimenta Rafael Salgado Raul Kroeff Machado Carrion Regina Zappa Renato Aroeira Renato Mayer Roberto Ponciano Gomes De Souza Júnior Rodrigo Dilelio Rodrigo Matta Machado Rosemary Fernandes Da Costa Ruth Floresta De Mesquita Sady Bianchi Salvatore Solimeno Samuel Aarão Reis Sara Cohen Sebastian Rojas Archer Sepeth Tiaraju De Los Santos Sergio Amaral Sergio Vieira Da Silva Sérgio Zanetta Silvana Beduschi Silvia Buarque Silvio Tendler Solange Rodrigues Soraya Ravenle Vera Athayde Paz Vera Helena Lessa Villela Vera Lucia De Oliveira Lins Vera Perfeito Vereador Chico Alencar Verônica Coutinho Vilma Baptista Vilson Antonio Romero Vitor Ortiz Viviane Guimarães Fulber Vladimir Santafé Volnei Piccolotto Walmaro Paz Walter Karwatski Yudith Rosenbaum Zorávia Bettiol |
A crise do cotovelo e a questão militar Posted: 31 Mar 2021 08:47 AM PDT Por Emiliano José, na revista Teoria e Debate: Não fôssemos antes, somos obrigados agora a olhar com mais atenção às movimentações militares. Dito de outra maneira, às manobras do atual presidente, sobretudo com a demissão do general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa, causadora de turbulência nas três forças só comparável à demissão de Ednardo D’Ávila Melo, em 1976, e Sylvio Frota por Ernesto Geisel, em 1977, anos de mortes e turbulências. Nas últimas horas, os comandantes das três forças decidiram pedir demissão em nítido protesto contra a demissão de Azevedo. Colocaram seus cargos à disposição do novo ministro da Defesa, general da reserva Walter Braga Neto, Edson Leal Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica). O governo tenta mostrar autoridade, não fala em pedido de demissão, e sim em substituição de comandos, e o próprio noticiário oscila entre uma e outra interpretação. A Folha de S. Paulo mancheteia, “Comandantes das Forças Armadas pedem demissão em protesto contra Bolsonaro”. Já o Estadão segue outro roteiro: “Após reunião tensa, governo anuncia troca dos comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica”. Tudo nesse dia 30 de março. Não estamos diante de uma crise qualquer, e não se deve olhar como simples acaso o fato de ela ganhar intensidade exatamente às vésperas da data comemorativa, para as forças militares, do golpe de 1964. O que pretende o governo Bolsonaro com esse movimento? Bolsonaro se viu acuado, e um sujeito como ele, acuado, aposta no confronto, não na negociação. Tentemos, muito rapidamente, demonstrar seu isolamento progressivo. Faço parênteses para dizer: essa crise foi gerada lá trás, pelo envolvimento das instituições com o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma e com a eleição de Bolsonaro. Vontade é dizer, mas de nada adianta: quem pariu Mateus que o balance. Mas, não. Ela atinge o país, não obstante não estejam nítidos os seus desdobramentos. Agora, um pouco tardiamente, algumas instituições, parte de nossa superestrutura vai se dando conta da gravidade do rumo escolhido. Não só instituições, não só a superestrutura. Nos últimos dias, o grande capital, ele mesmo, aquele cuja escolha era "tudo pode menos o PT", capital financeiro incluído, deu sinais de inquietação. O governo, com sua política negacionista, genocida, traz sérios problemas para os negócios, para as relações do país com o resto do mundo. Fez acender sinal amarelo. A água bateu na cintura, para não dizer de modo chulo. O Judiciário, cujo comprometimento com o golpe e com a eleição de Bolsonaro não pode ser ignorado, também começou a acordar para suas responsabilidades. Mantido o comportamento anterior, a imagem da instituição ia pro ralo. Deu inúmeros recados. Não estava disposto a endossar as políticas do presidente, e defendeu, por exemplo, o direito dos governadores e prefeitos de tomarem medidas baseadas na ciência, a autonomia dos entes federados. E, ainda, inocentou o presidente Lula, e de quebra jogou a Lava Jato na lata de lixo da história, ao menos por enquanto. Pandemia recrudescendo, mais de 310 mil mortos, autêntico genocídio, Bolsonaro tentando aparentar ser a favor da vacina diante da tragédia, a fome voltando em ritmo acelerado nos lares dos pobres do Brasil, tentou pressionar o general Fernando Azevedo, ministro da Defesa, a agir como o general Eduardo Vilas Bôas, e pressionar o STF depois da recente decisão sobre Lula, agora liberado para ser candidato. Azevedo resistiu. Não abria mão de garantir as Forças Armadas como instituição de Estado, como disse em sua nota, ao sair. Foi o estopim da crise, razão da demissão, e da saída também dos três comandantes. Há quem fale da “crise dos cotovelos”. Dia 30 de abril de 2020. Posse do novo comandante do Comando Militar do Sul, presença do presidente. Ao chegar, Bolsonaro estende a mão ao general Edson Pujol, comandante do Exército. Pujol, deixa-o com a mão no ar, oferece o cotovelo, e é correspondido, sem entusiasmo. O general Antônio Miotto também cumprimentou o presidente a cotovelada. Bolsonaro teria ficado muito contrariado. São gestos simbólicos, a contrariar toda a retórica dele. E a demonstrar posição diversa do Exército. Aqui chegamos à instituição Forças Armadas. Não estou entre aqueles a insistir em encontrar agulha em palheiro: não acredito em nacionalistas nas Forças Armadas. Já existiram. Não mais. Não acredito também em ardorosos defensores da democracia nos seus quadros. Ora, ora: foram os promotores do capitão, não? Nenhuma dúvida. Talvez, creio nisso, imaginassem pudessem exercer domínio sobre ele. Qualquer cavalo chucro pode ser domado. Pode, mas isso às vezes leva um tempo superior a um mandato de quatro anos. Os generais tentaram até aqui, e não conseguiram. O cavalo continua corcoveando, sem parar, e cavaleiros sendo jogados fora da arena, generais inclusive. O Exército, principal força, sentiu, é visível, ser necessário evidenciar algum distanciamento do presidente, sob pena de a imagem da instituição ir pro ralo, como pesquisas já indicavam. Não foi só a crise dos cotovelos. O querido amigo José Genoíno me lembrou recente entrevista do general Paulo Sérgio, responsável pelo departamento-geral de pessoal do Exército, sobre medidas para preservar os integrantes da força face à Covid, deixaram nítido esse esforço de distinção com Bolsonaro. A taxa de mortalidade pela doença entre as 700 mil pessoas da Arma é de 0,13%, bem abaixo dos 2,5% registrados no restante da população brasileira. O segredo: o Exército adotou rigoroso lockdown, enviando todas as pessoas de risco para trabalhar de casa. Novos recrutas, colocados em regime de internato, alguns passam semanas sem ir para casa para evitarem contaminação pelo novo coronavírus. Cerimônias militares suspensas em todos os quartéis e campanhas massivas foram realizadas a favor do isolamento social e do uso de máscaras. Tudo isso foi revelado pelo general Paulo Sérgio, em linha oposta à do presidente da República. Houvesse essa compreensão, fossem adotadas as medidas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde, a situação do país seria bem melhor. Este, o recado do militar. Bolsonaro percebeu o movimento das Forças Armadas, de modo especial do Exército, sentia o afastamento. E resolveu reagir. Não estavam sob suas ordens, ao menos sob aquelas mais disparatadas. Não parece restar dúvida da aposta no confronto, e não falamos apenas no confronto direto com as Forças Armadas. O óbvio estímulo às hordas bolsonaristas para insuflarem rebeliões nas polícias militares foi outro dos movimentos. Um manifesto de governadores nas últimas horas denuncia isso, reunindo dezesseis deles das mais variadas forças políticas. Se a essas hordas se juntam as milícias, vai se formando uma tempestade perfeita, e essa movimentação a insuflar polícias militares obviamente desagrada as Forças Armadas. A aposta no confronto, feita por Bolsonaro, neste momento, querendo confrontar instituições, inclusive o Judiciário, parece não agradar às Forças Armadas. Pela primeira vez, no governo dele, elas parecem querer demarcar terreno, querendo garantir autoridade como instituição de Estado, e não como órgão de governo, ao contrário do que pretende o presidente. Se conseguirão, só os fatos seguintes dirão. Se até agora foi impossível domar o capitão, será possível a ele controlar as Forças Armadas, particularmente o Exército, tê-las sob seu tacão? Até onde irá sua autoridade, ao nomear os novos comandantes? As Forças Armadas farão uma nova aposta de ir às cegas com o atual presidente, neste momento enfraquecido, furioso e disposto a medidas autoritárias, como o estado de defesa, voltado ao ataque a quem considera seus adversários políticos, particularmente os governadores dedicados a um combate sério à pandemia? Várias instituições, e estamos nos limitando apenas a elas nessa análise, fizeram uma aposta contra o PT, e contra o partido valia qualquer coisa, e agora observam o monstro criado e não sabem como lidar com ele. É um momento de profunda instabilidade política, não fosse a tragédia da pandemia e da aprovação de um Orçamento com sinais a trazer mais ingovernabilidade ainda, como me foi apontado também por José Genoíno. Quem sabe, as Forças Armadas, depois de aderirem corretamente às regras da ciência e do bom combate à pandemia, depois de se recusarem a adotar a política golpista do general Vilas Bôas, finquem pé na atitude de serem, como constitucionalmente o são, instituições de Estado, e se recusem a qualquer aventura fora dos quadros democráticos. De parte da esquerda, cabe resistir, como vem resistindo, à política genocida, defender a vida. Apoiar, estar junto de todas as iniciativas voltadas às orientações da Organização Mundial da Saúde, e de todas as forças políticas envolvidas na luta pela vacinação em massa da população, simultaneamente ao esforço para garantir renda mínima a milhões de necessitados do país, de modo a poderem ficar em casa e garantir o indispensável distanciamento social nesse quadro de colapso dos serviços de saúde em praticamente todo o país. Na crise militar, combater a atitude do atual presidente em tentar atribuir às Forças Armadas o papel de milícia do Planalto, contrariamente às suas missões constitucionais. Às Forças Armadas, desejar que compreendam o barco furado em que entraram com Bolsonaro, e possam manter-se no exclusivo território da democracia. Desejar, podemos. Lutar, também. E torcer, aos incréus, aqueles incapazes de rezar, por não saberem, como o autor dessas linhas, torcer para que de tal crise não irrompam quaisquer medidas autoritárias, das quais o país está farto. Encostado ao dia 1º de abril, data do golpe de 1964, lembrança de 21 anos de autoritarismo, queremos insistir: ditadura, nunca mais! * Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (2 vol.), entre outros. |
Posted: 31 Mar 2021 08:45 AM PDT Por José Dirceu, no site Poder-360: Sempre é arriscado escrever em cima dos fatos. Mas temos experiência suficiente e já conhecemos bem nosso personagem para dizer, a exemplo de outros analistas, que o presidente da República, na prática, saiu das cordas e reforçou seu controle sobre peças-chave do xadrez de seu governo. Braga Netto assume o Ministério da Defesa no lugar de Fernando Azevedo, que, pela sua nota e por fatos recentes como declarações do diretor de RH do Exército, general Paulo Sérgio, na linha oposta à do governo na mais importante questão hoje do país, a pandemia, caiu porque pretendeu manter as Forças Armadas fora da estratégia bolsonarista. As declarações da deputada Bia Kicis, presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, no mesmo dia da troca de comando no Ministério da Defesa, compõem o cenário de radicalização que Bolsonaro vem desenhando. A deputada bolsonarista estimulou, em post na redes sociais, a greve dos PMs da Bahia contra o governo Rui Costa em função de fato gravíssimo ocorrido no final de semana que, no entanto, não é responsabilidade do governo estadual. Essa não é a primeira agitação em quartéis das PMs; já houve motim no Ceará. Fora o fato de que as declarações de Kicis ocorreram logo depois de as milícias bolsonaristas estimuladas por Eduardo Bolsonaro iniciarem uma série de manifestações nas portas dos quartéis do Exército pedindo intervenção militar. O que vem depois ainda não sabemos. A troca de Ernesto Araújo por Carlos França e a indicação da deputada do PL Flávia Arruda expressam a força dos partidos do chamado centrão: agora PP, PR, PL estão no governo, garantindo, por enquanto, uma maioria capaz de impedir o processo de impeachment. No Itamaraty, a troca não expressa uma mudança de política, no máximo de estilo, mas foi estimulada pelo consenso dos senadores contra Ernesto Araújo, agravado ao limite após seu ataque covarde à senadora Kátia Abreu, presidente da Comissão de Relações Exteriores. Já na Saúde houve de fato uma mudança relativa, o que demonstra fraqueza do governo frente à crescente indignação e oposição à sua política negacionista e criminosa frente à pandemia. No fundo, o governo teve que ceder à pressão da Câmara, por meio de discurso de seu presidente Artur Lira, e do Senado, com as posições defendidas pelo seu presidente Rodrigo Pacheco. Blindagem da família O presidente moveu mais duas peças importantes, uma torre e um bispo, o Ministério da Justiça e a AGU, sua primeira linha de defesa depois do Congresso Nacional com risco real de termos um Estado policial. Nesses postos colocou dois guarda costas – Anderson Torres, delegado da Polícia Federal e íntimo da família, e André Mendonça, que já integrou seu governo – para proteger sua família e atacar seus adversários, não tenhamos nenhuma dúvida. Manteve ao seu lado Luiz Eduardo Ramos na Casa Civil. A conclusão desses movimentos é que o presidente reforçou sua linha de defesa no Congresso e buscou superar os vetos, isso mesmo, a dois ministros já sem nenhuma sustentação política, Eduardo Pazuello e Ernesto Araújo. E colocou dois fiéis na Justiça e AGU preparando-se para a batalha que continua e depende de outras variáveis, a pandemia e a economia. Quem é o rei e a rainha, Bolsonaro ou as Forças Armadas? Essa pode ser a variável ainda não esclarecida, principalmente com a demissão dos comandantes das três armas, o que pode indicar uma crise militar. E os adversários com as peças brancas, a oposição e o povo o que farão, até onde o país suportará Bolsonaro e seu governo? Os últimos sinais políticos – aumento da pressão no Parlamento e na mídia, a manifestação dos banqueiros, a volta de Lula com força para mudar o cenário para 22 e, principalmente, o agravamento da pandemia e da crise social – indicam um isolamento cada vez maior do governo e riscos reais de perda do controle. Afinal, o fim do auxílio emergencial e a aprovação de uma ajuda irrisória para fazer frente à escalada de preços da cesta básica vão aumentar miséria. Daí o contra-ataque de Bolsonaro com uma operação de Estado Maior. Resta saber se o salvará até 22. |
Bolsonarismo derrete e arma barricadas Posted: 31 Mar 2021 08:41 AM PDT Por Simão Zygband, no site Construir Resistência: Anteriormente escrevi na minha coluna que o presidente em decomposição, Jair Bolsonaro, como todo bom psicopata, iria criar problemas maiores do que criou o seu amigo Donald Trump ao perder as eleições norte-americanas. O ex-presidente dos EUA demorou para reconhecer a derrota e quase teve que ser posto para fora da Casa Branca a pontapés. Bolsonaro, um admirador do torturador Brilhante Ustra – e só por isso jamais deveria ter sido eleito e sim preso por apologia à tortura, crime previsto no Código Penal, – vendo que sua popularidade despenca a cada dia, que México, Argentina, Bolívia, entre outros colocaram fim à era de governos de direita, decidiu armar uma “barricada” para tentar se perpetuar no poder. Como se diz no futebol, na frase cunhada pelo inesquecível atacante da seleção brasileira, Mané Garrincha, Bolsonaro só esqueceu de “combinar com os russos”. Realizou uma “reforma ministerial”, com a troca de seis ministros, dando mais poderes ao denominado Centrão do Congresso, para assim garantir conforto em votações de projetos que poderiam lhe ser problemáticos. Mas, para fazer esta acomodação, o presidente (sic) retirou um pouco do poder dos militares no governo. Conclusão: todos os comandantes das Forças Armadas colocaram os cargos à disposição, fato que nunca havia acontecido antes na história do país. Recentemente, centenas de economistas neoliberais, empresários, banqueiros divulgaram uma carta aberta criticando a “negligência” do capitão reformado no exercício da presidência, exigindo dele urgência na vacinação e políticas públicas “com base na ciência”. O documento defendeu lockdown geral e criticou o “falso dilema” entre salvar vidas e a economia, defendida por Bolsonaro. A carta tem 500 assinaturas. Traduzindo, Bolsonaro perde apoio popular, conforme revelam as últimas pesquisas, de parte das Forças Armadas e de um importante contingente do empresariado. Tenta fazer o que mais entende, que é o toma lá dá cá no Congresso, onde hibernou por longínquos 33 anos, se notabilizando apenas por cuspir estultices com viés racista, homofóbico, misógino, entre outros. Também não lhe agrada a ideia de ser considerado um pária na comunidade internacional onde é reconhecidamente o pior presidente do mundo no enfrentamento à pandemia de Covid-19, ocasionando fuga do capital estrangeiro do país e colocando qualquer brasileiro que queira ir ao exterior como um transmissor em potencial de coronavírus. Quem analisa mentes doentias como a de Bolsonaro, como o psiquiatra forense Guido Palomba, sabe perfeitamente que ele não entregará o poder de bandeja e que poderá até promover um derramamento de sangue, caso seja pressionado a deixar o poder. Talvez não haja clima para a realização de um golpe, pois falta unanimidade entre os militares, apoio popular (desgastado com o descontrole na economia) e de parte do empresariado para apoiá-lo em uma aventura golpista. Mas, cria-se uma atmosfera de insegurança e incertezas, já que o bolsonarismo também tem seus fanáticos, estúpidos suficientemente para lutar pelo seu capitão até a morte. O capitão reformado dará um golpe baseado então em pastores evangélicos de má índole, que exploram a fé do povo pobre, com um exército de milicianos, criminosos mercenários com quem a família presidencial tem notório envolvimento e com o que resta de pessoas que ainda acreditam no genocida? Parece que a barricada do extremista não resistirá por muito tempo. |
O governo mais militarizado desde 1985 Posted: 31 Mar 2021 08:22 AM PDT |
Acuado, Bolsonaro vai até se vacinar? Posted: 31 Mar 2021 08:20 AM PDT |
Big Brother Brasília: quem será o próximo? Posted: 31 Mar 2021 08:18 AM PDT |
Crise militar e o desespero de Bolsonaro Posted: 31 Mar 2021 08:17 AM PDT |
O auxílio emergencial de R$ 150,00 Posted: 31 Mar 2021 08:15 AM PDT |
Um momento decisivo para o Exército Posted: 31 Mar 2021 08:13 AM PDT |
Bolsonaro está preparando o golpe? Posted: 30 Mar 2021 07:22 PM PDT |
Bolsonaro em guerra com as Forças Armadas? Posted: 30 Mar 2021 07:27 PM PDT |
Posted: 30 Mar 2021 07:14 PM PDT |
As aventuras antidemocráticas de Bolsonaro Posted: 30 Mar 2021 06:27 PM PDT |
O fim do capitão ficou mais próximo Posted: 30 Mar 2021 06:22 PM PDT |
Bolsonaro e o Exército para chamar de seu Posted: 30 Mar 2021 07:37 PM PDT Por Fernando Brito, em seu blog: Perdoem-me pela crueza os arrependidos, os que “não sabiam” que Jair Bolsonaro é um fascista, um autoritário e alguém que cuida do poder como de uma empresa familiar, se há algo que não se pode dizer do atual ocupante do Planalto é que ele deixa bem claro o que é e o que quer. Pouca gente deu a devida importância quando, dias atrás, falando às suas falanges de fanáticos, referiu-se a “seu” Exército. Pois é esta ideia de instrumento pessoal de poder que Bolsonaro tem das Forças Armadas, não a de serem “instituições de Estado”, como frisou ontem em seu “bilhete de despedida” o agora ex-ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Igor Gielow, repórter da Folha com amplo convívio com os militares, diz que os comandantes do Exército, Marinha e da Aeronáutica já “colocaram seus cargos à disposição” do general Braga Netto, um militar cuja carreira “disparou” quando foi escolhido por Sérgio Etchegoyen, chefe do GSI de Michel Temer e pelo comandante do Exército, então, Eduardo Villas-Bôas. Diz Igor que Braga Netto estaria disposto a manter, ao menos provisoriamente, os comandantes da Marinha e da Aeronáutica, deixando alfange apenas para o comandante do Exército, general Edson Pujol, que está em desgraça com Bolsonaro por, exatamente, recusar que o Exército funcione como a mão armada do Presidente da República. Braga Netto, é claro, conhece estes planos. E, das duas uma: ou concorda com eles ou, esperto, quer surfar nos desejos do capitão para completar, como Ministro da Defesa, a sua meteórica ascensão no poder. Não está assumindo – e isso é claro – para manter a (curta) distância que Azevedo e Pujol, a duras penas e dolorosas concessões, tentaram manter dos planos de uso das Forças Armadas como o “Exército de Bolsonaro”, com o evidente propósito de fazê-lo ferramenta para evitar as medidas sanitárias que os já quase 320 mil mortos exigem do país. É possível que muitos oficiais das nossas Forças Armadas não percebam, mas está em curso – e faz tempo – a associação dos militares ao genocídio em curso no país. Muitos, mas não todos, até porque são pessoas capazes de imaginar o que sobre isso se escreverá nas páginas da História. Porque o exército, imenso, enorme, apavorante que tem este país são as centenas de milhares de brasileiros e brasileiras que caíram e estão caindo diante dos que juraram defendê-los e que não têm a coragem de dizer que se recusam a participar disso. |
Cavalo de Troia pode deixar militares a pé Posted: 30 Mar 2021 07:27 PM PDT |
Arte: Gladson TargaPor Maria Inês Nassif, no Jornal GGN:É falsa a imagem construída de Jair Bolsonaro, de líder popular de extrema-direita que ganhou as eleições e escolheu militares para ocupar a avassaladora maioria das posições de comando de seu governo. Um raciocínio invertido pode tornar muito mais compreensível a crise militar que eclodiu dentro do gabinete do presidente-capitão, com a demissão do ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo e Silva.
Na verdade, a história recente dá precedência aos generais na tomada do poder civil. Eles foram os criadores. Bolsonaro, a criatura. Generais da ativa da mesma geração atuaram em conjunto para viabilizar o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e ascenderam ao poder em 2018 por meio de uma campanha ganha com destruição de reputações, fake news da pior espécie e pressão direta sobre o Supremo Tribunal Federal.
Some-se a isso um duvidoso atentado contra o candidato apoiado por eles, que virou a eleição quando o petista Fernando Haddad ascendia nas pesquisas. A vitória do capitão não foi simplesmente produto da sua popularidade ou de uma ofensiva bem-sucedida da extrema-direita, mas um verdadeiro trabalho de contrainformação, especialidade de uma geração de generais formada nos anos 70, quando a corporação moldou jovens militares a uma ideologia anticomunista exacerbada e fanática.
Esse contingente foi centralmente treinado no combate à guerrilha e na repressão política, segundo explicação do coronel da reserva Marcelo Pimentel em entrevista ao podcast Roteirices, veiculada nos dias 17, 18 e 19 de março (acessível pelo Spotify). O coronel Brilhante Ustra não os envergonha, mas é uma referência ideológica para eles.
Na expressão feliz do coronel reformado, Bolsonaro foi o cavalo de Troia que, na sua barriga, trouxe o Exército para a Esplanada dos Ministérios e permitiu à corporação capturar o poder civil. Agora, diz o coronel, Bolsonaro tornou-se o incômodo, o “espantalho” daqueles que articularam sua candidatura dentro dos quartéis.
Bolsonaro não seria eleito sem os militares. A alta hierarquia militar empreendeu uma “guerra híbrida” para radicalizar a sociedade civil, tirar Lula do páreo nas eleições de 2018 e conseguir o número de votos necessário para colocar na Presidência um deputado fascista que, após 27 anos como deputado federal integrando o mais duvidoso baixo clero, foi vendido ao eleitorado como o inaugurador de uma “nova política”, que se mostra com uma qualidade também pra lá de duvidosa.
O que não deu certo na articulação militar foi o cálculo de que poderiam dominar Bolsonaro. Os governos de inspiração fascista historicamente giram em torno de um líder com apelo popular que seja capaz de arregimentar adeptos civis, de preferência no lumpesinato (a parcela dos rejeitados por suas próprias classes e uma massa de manobra passível de engrossar milícias armadas). Essa massa de desajustados sociais (isso tem pouco a ver com riqueza ou pobreza) é mais susceptível à adesão incondicional a um líder com a cara deles.
Bolsonaro era o substrato do pó de traque da política tradicional; no Congresso, pertencia ao baixo clero, cuja importância é apenas o voto individual do parlamentar, que o negocia por pequenos favores. Não seria um exagero dizer que Bolsonaro ascendeu de uma espécie de lumpesinato parlamentar, grupo engrossado enormemente nas eleições de 2018. Os deputados do baixo clero são carne de sua carne.
Bolsonaro também não fugiu ao figurino do líder fascista quando submetido a um exame psicológico. Seu extremismo é alimentado por característica de personalidade também extremas: carrega um alto grau de paranoia, que exacerba sua ignorância sobre governar e dificulta o entendimento das consequências de suas decisões voluntariosas. Bolsonaro é, decididamente, paranoico e voluntarioso. O general Fernando Azevedo e Silva deve a isso a sua demissão.
O presidente é paranoico o suficiente para perceber que estava em andamento uma articulação militar para livrar-se dele sem sair do governo. O primeiro objetivo era (e ainda continua) dissociar a imagem do Exército do genocídio cometido contra a população civil, levada a termo por decisões tomadas por Bolsonaro, mas executada por um militar da ativa, sem que o Partido Militar esboçasse a mínima reação contrária; e de uma administração desastrosa do país, governado majoritariamente por oficiais do Exército.
A operação, segundo o coronel Marcelo Pimentel, é bastante similar à que se iniciou antes do governo Dilma e levou Bolsonaro ao poder: uma parte do grupo fica no governo; a outra sai e encena a dissidência. Ambos se unem no momento seguinte, com um governo eleito por eles.
A operação militar em curso vazou notícias de uma dissidência entre os que permaneceram e os que saíram do governo e simultaneamente, todos unidos, a articulação de uma “terceira via” como alternativa a Bolsonaro em 2022, de preferência uma opção entre eles: o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que foi demitido da Secretaria de Governo e tornou-se um militante opositor do governo nas redes sociais. Essa seria uma opção de manter o controle sobre a sociedade civil sem lançar mão de intermediários. A designação “terceira via” acena para a direita não extremista.
O golpe de mão desferido por Bolsonaro nos seus condôminos de poder, ao demitir o ministro da Defesa, é um recado muito claro a eles. Os militares ficam no governo se submeterem-se aos seus desígnios, inclusive, se ele quiser, usando a força contra a população civil. Se não, ele faz isso com as polícias, onde tem uma enorme popularidade junto à tropa, e com milícias armadas. A criatura devorou seus criadores. E ambos devoram a sociedade civil.
A perigosa cartada do desespero
Posted: 30 Mar 2021 07:00 PM PDT
1. A maior ameaça à democracia das últimas horas não partiu da Esplanada dos ministérios com sua frenética dança das cadeiras. O perigo morava nas imediações do Farol da Barra, em Salvador, e do uso que hordas bolsonaristas queriam fazer do delírio suicida do soldado Wesley Soares. Este abriu fogo de fuzil em praça pública na noite de domingo, depois de se paramentar como boina verde de filme da Marvel.
2. Qual era a ideia? A de Soares morreu com ele. A do bolsonarismo era previsível. A inacreditável Bia Kicis, com a habilidade de um capitão de mega cargueiro no canal de Suez, deu o tom. “Morreu porque se recusou a prender trabalhadores. Disse não às ordens ilegais do governador Rui Costa da Bahia. Esse soldado é um herói. Agora a PM da Bahia parou. Chega de cumprir ordem ilegal!”. Era a senha para um motim, logo engrossada pelo siderado Soldado Prisco, ex-PM e atual deputado estadual. Seriam imprevisíveis as repercussões nas forças policiais de outros estados, base fértil do bolsonarismo.
3. Deu tudo errado e o isolamento da crise foi imediato. Dezesseis governadores lançaram nota conjunta e até gente da direita – como Rodrigo Maia – foi para cima da infeliz presidenta da Comissão de Constituição e Justiça. A extrema-direita perdeu.
4. Qual a segunda frente de ataque fascista? Transformar o 31 de março numa apoteose golpista em todas as guarnições militares do país. Vai dar certo? Não se sabe. É possível que não. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, foi demitido, após a ira do Genocida se voltar contra a entrevista do general Paulo Sérgio, responsável pelo setor de recursos humanos do Exército, ao Correio Braziliense. O oficial vê o perigo de uma terceira onda de covid no país, mas destaca as medidas de isolamento social nos quartéis, o que vem reduzindo as contaminações. O Genocida espumou por ver desrespeitadas suas diretrizes negacionistas.
5. Azevedo é um direitista radical, mas recusa-se a comer carne crua com as mãos. Não quer o Exército se desgastando ainda mais, após a desastrosa gestão Pazuello na Saúde. Vale dizer que o setor militar está visivelmente abalado diante da pregação do caos, como alertou Bolsonaro há alguns dias.
6. Boatos pululam no calor da hora. O comandante do Exército, Edson Pujol, que nunca foi bolsonarista-raiz, estaria demissionário e o alto comando estaria reunido, traçando alternativas imediatas.
7. Os acontecimentos da segunda-feira sucedem a trombada que o Senado em peso deu no ex-ministro de Relações Exteriores, após este insinuar em rede social que a senadora Katia Abreu, presidenta da Comissão de Relações Exteriores, faria lobby para empresas chinesas na disputa da tecnologia 5G. Na verdade, a trombada se deu contra a política externa alucinada do governo. Nem parece que há pouco mais de um mês, tudo pareciam ser flores entre o Genocida e o Congresso, após as vitórias de Artur Lira e Ricardo Pacheco para o comando das duas casas legislativas.
8. É esse Genocida, estremecido com a cúpula do Congresso, tendo problemas com o alto comando militar e frustrado com o motim baiano, que faz um troca-troca em seis ministérios, buscando se fortalecer.
9. O Genocida tenta um golpe? O Genocida tenta um golpe, sim. Só que à sua maneira, com guerra de posição e sem disputar hegemonia. Seu objetivo é elevar artificialmente as tensões sociais ao máximo – a não concessão do auxílio emergencial no auge da pandemia tem esse propósito – e insuflar o núcleo duro de seus apoiadores para uma Jihad contra o globalismo, a corrupção, a globolixo, a politicagem, esses governadores tiranos e mais alguns moinhos de vento.
10. Novamente a pergunta: dará certo? Ninguém sabe, mas a probabilidade não é alta, em meio a uma pandemia devastadora, Esse o fator central da conjuntura. As próximas horas até o aniversário do golpe de 1964 definirão muita coisa. Um sinal interessante a se levar em conta é que até agora ninguém da Faria Lima veio em seu socorro. A turma do dinheiro costuma ser cautelosa.
P. S. Para haver golpe, é preciso haver comando e direção política. Não parece haver isso no governo Bolsonaro, mas uma eterna tática-processo para fustigar os limites da institucionalidade. O genocida vai sempre metendo o pé na porta, experimentando o que cola e o que não cola e contando com a condescendência dos demais poderes. Em 1964 havia conspiração organizada nas Forças Armadas, no empresariado, articulações claras com a embaixada dos EUA etc. Era clara a existência de um comando golpista. Ou os bolsonaristas são muito bons de dissimulação, ou não há nada muito estruturado para dar curso a uma mudança de regime.
O Partido Militar e a mudança ministerial
Posted: 30 Mar 2021 06:53 PM PDT
Igualmente raro é o clima geral de normalidade na imprensa e nos meios políticos com os novos titulares acomodados nas vagas abertas, sem maiores celeumas.
É custoso acreditar que haja improviso neste vertiginoso e, aparentemente, metódico processo. O contexto leva a crer que possa ter sido uma operação planejada previamente.
Afinal, só se tinha como certa e inevitável a demissão de um único ministro, o lunático Ernesto Araújo, e não se tinha a menor ideia de que o substituto seria o inerte diplomata Carlos França, que fará de boca fechada o mesmo que o bufão antecessor fazia com histrionismo.
A hipótese de a demissão coletiva ter sido mais uma encenação não deve, portanto, ser descartada, sobretudo porque são os militares que comandam o “teatro das operações”. Eles atuam permanentemente, de modo simultâneo e paralelo, ao mesmo tempo como incendiários e como bombeiros.
A partir de análises e pesquisas próprias e da leitura de estudos de especialistas na questão militar, parto do pressuposto de que Bolsonaro é um fantoche de um governo militar – que é bem diferente de um governo com militares.
O governo e todo processo é comandado pelos generais do Partido Militar – “o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, disse o agradecido Bolsonaro ao ex-comandante do Exército, general Villas Bôas.
Mas não se pode eliminar a hipótese de que o enfraquecido Bolsonaro, diante do risco de descarte pelo Partido Militar, busca ostentar sua base social explosiva: policiais militares estaduais e polícias em geral; soldados, praças e setores da oficialidade das Forças Armadas; milícias armadas e fundamentalistas religiosos. O estímulo da matilha bolsonarista à sedição dos policiais militares da Bahia e a escolha do ministro da Justiça são coerentes com a hipótese.
Mesmo esta narrativa acaba sendo benéfica para o Partido dos generais, porque ela reforça o papel que os comandos das Forças Armadas se auto-atribuem como garantidores do sistema, e assim continuam pairando como uma névoa densa acima da democracia, do Estado de Direito e das instituições civis.
Voltando à hipótese de encenação, mencionada acima, é de se perguntar: e se a mexida no ministério foi uma operação diversionista do Partido Militar, qual poderia ser a motivação para isso? A resposta à pergunta pode estar nas manchetes de capa de todos principais jornais do país. De tão uníssonas, até parece que toda imprensa apenas reproduziu o release da comunicação do Exército:
– “Bolsonaro troca 6 ministros, afaga o centrão e surpreende militares”, FSP;
– “Pressionado, Bolsonaro cede ao Centrão e tenta controlar militares”, O Globo;
– “Ministro da Defesa cai por recusar uso político das Forças Armadas”, Estadão;
– “Militares resistem a alinhamento”, Valor Econômico;
– “Bolsonaro cede a Centrão e abre crise com militares”, Correio Braziliense.
Com esta narrativa, repetida de modo automático e alienado em praticamente toda mídia, os generais tentam incutir a falsa ideia de distanciamento/dissociação das Forças Armadas do governo que foi eleito, foi montado e é gerido pelo próprio Partido Militar.
Fazem isso mesmo que um general da ativa, cumprindo missão autorizada pelo Comandante do Exército, seja o responsável objetivo e subjetivo pelo genocídio que ultrapassa 300 mil mortes.
O motivo alegado para a demissão do general Fernando Azevedo e Silva cai como uma luva para a construção da falácia: teria sido a suposta contrariedade do Bolsonaro com entrevista do general Paulo Sérgio expondo a visão científica do Exército em contraposição à posição negacionista do governo no enfrentamento da pandemia.
O superdimensionamento de benefícios ao “centrão” descrito nas manchetes e reportagens também é bastante útil à narrativa dos generais. Afinal, tentam desvincular o “puro” e incorruptível Partido Militar daqueles que um dia Augusto Heleno cantarolou “se gritar pega centrão, não fica um meu irmão”.
Ao contrário do que a mídia propaga, a mexida no ministério fortaleceu a ideia de que os generais “legalistas” [sic] são ainda mais indispensáveis no processo político.
Depois da volta do Lula, o Partido Militar move as peças do tabuleiro para ajustar sua estratégia à nova realidade. O arranjo diversionista do governo é parte deste movimento.
Em paralelo, os generais investem na formação de uma frente anti-Lula juntando a direita tradicional, a mídia hegemônica e as facções da extrema-direita – moro-lavajatista e militar-bolsonarista – para a eleição de 2022.
O general Santos Cruz e Sérgio Moro estão sendo testados como possibilidade de assumirem, desta vez, o papel de Cavalo de Tróia do Partido Militar que já foi desempenhado por Bolsonaro.
Nos últimos dias, este general que coordenou a campanha de Bolsonaro em 2018 participou de diversas transmissões pela internet, entre elas com o MBL. E o juiz-ladrão, que vem recebendo um tratamento de repaginação de imagem na mídia dominante, como no Jornal Nacional de 30/3.
Acuado, Bolsonaro entra em pânico
Posted: 30 Mar 2021 06:50 PM PDT
O governo Bolsonaro é hoje um espectro daquele que assumiu em janeiro de 2019 com forte apoio do setor financeiro, da classe média, da mídia, do alto empresariado, das Forças Armadas, do Judiciário, da Lava Jato, dos EUA, de Trump e também do povão.
Em janeiro de 2019, Bolsonaro já tinha oposição aguerrida, mas ao mesmo tempo sufocada. À mercê do que pudessem vir a ser os erros e acertos do governo que chegava. Mais disso do que da sua capacidade de operar uma resistência organizada e forte a uma agenda que prometia intervenções pesadas na economia e nos direitos humanos.
Bolsonaro chegava como um imperador num cavalo branco. Algo meio um Napoleão com uma agenda ultraneoliberal e fascista.
Neste final de março de 2021, por um lado Bolsonaro acaba de mostrar ao país que é refém do centrão, cedendo na demissão de seu fiel escudeiro, Ernesto Araújo, por exigência do Senado e entregando a Secretaria do Governo para uma inexpressiva deputada, Flávia Arruda, que é unha e carne com o presidente da Câmara, Arthur Lira, e filiada ao PL que já mandava piscadelas para a candidatura de Lula. Sim, Bolsonaro também deu sinal de que tem medo de Lula.
Por outro lado, Bolsonaro revelou ao país que não tem nas Forças Armadas o apoio que boa parte da população e da esquerda imaginavam que tinha. Ao demitir o ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva e ter recebido sinais de demissão dos comandantes das três armas (Marinha, Aeronáutica e Exército) ficou claro que o comando das Forças Armadas está com o presidente até a página 3. E que ele terá que quebrar muitos ovos se quiser enveredar pelo omelete autoritário.
Não há um sinal sequer de força que permita Bolsonaro endurecer o regime neste momento. Os sinais são de um piloto que comanda um avião descontrolado por erros que cometeu e que não sabe mais o que fazer. Por isso decidiu arriscar uma reforma ministerial destrambelhada mexendo num ministério tão sensível como o da Defesa sem ter uma direção clara do que pretende.
Numa hora dessas não é recomendado aos que são oposição entrarem em pânico junto com o governante em crise. É preciso ter muita calma e não ficar gritando, por exemplo, golpe à vista ou qualquer bobagem com este significado.
Um golpe não se consolida apenas pelo desejo de um presidente maluco. Ele precisa de condições e apoios objetivos do estabilishment, da mídia e das Forças Armadas que Bolsonaro já não tem mais neste momento.
Bolsonaro está lutando pela sua sobrevivência. Contra um impeachment que parecia imensamente distante há 3 meses e que subiu no telhado. E pela blindagem dos seus filhos, em especial o 01.
Pode parecer um bicho assustado, disposto a tudo, mas já é um bicho sem dentes. Uma presa fácil para ser descartada pelo sistema, se este entender que é a hora. Até porque a popularidade de Bolsonaro está em queda.
Não é momento de temê-lo e nem de fortalecê-lo com teses conspiratórias. É hora de tratá-lo politicamente como ele é, um verme. Um verme genocida.
Brasília vive terremoto de especulações
Posted: 30 Mar 2021 06:43 PM PDT
Circula a versão de que Azevedo e Silva teria saído da Defesa porque teria sido contra eventual demissão do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, que permanece no cargo até fechamento desta matéria. Pujol seria considerado “fraco” por Bolsonaro. Se Pujol cair, o comando do Exército ficaria com a linha dura da Força. O general convocou uma reunião com os comandantes da Marinha, almirante Ilques Barbosa Júnior, e da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, para deixarem o governo em conjunto. Na nota em que anuncia sua saída do governo o ex-ministro da Defesa escreveu uma frase que chamou a atenção: “Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado”.
Centro nervoso da segurança
O cientista político Vitor Marchetti, da UFABC, no Twitter, chama a atenção para o fato de que as mudanças acontecem no “centro nervoso” da segurança nacional: Defesa, Ministério da Justiça, AGU, Casa Civil e Secretaria de Governo. Apesar de a deputada do PL assumir a Secretaria de Governo, “a dança das cadeiras não está acontecendo no terreno tradicional do Centrão”, observou.
O analista chama a atenção para três fatos ocorridos de ontem (domingo, 28) para hoje: entrevista do general Paulo Sérgio ao Correio Braziliense, em que defende medidas reconhecidas mundialmente no combate à covid-19; o vice-presidente Hamilton Mourão tomou a vacina e afirmou: “Fiz minha parte como cidadão consciente”; e a própria demissão de Azevedo e Silva.
Perguntado, na entrevista, se há campanhas de conscientização no Exército sobre medidas contra disseminação do vírus, o general Paulo Sérgio respondeu que “chega a ser uma febre”. Disse que os recrutas que se alistam colocam todas as medidas sanitárias em prática. “Desde a chegada ao quartel até a instrução; à noite, na hora de dormir; é o termômetro na entrada, higienização dos pés, álcool em gel, uso da máscara, distanciamento”, afirmou o militar. Ele afirmou ainda: “todas as medidas sanitárias, diretrizes emanadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), corroboradas pelas nossas diretorias de saúde, são rigorosamente cumpridas em nossos quartéis”. É o oposto do que pregou Bolsonaro durante a pandemia.
Na opinião do deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ), Bolsonaro “está unindo fisiologismo e autoritarismo”. A estratégia, especula, seria abrir espaço para o Centrão e ao mesmo tempo fortalecer “a ala militar mais submissa ao seu projeto de poder”. A nota do já ex-ministro da Defesa seria “um alerta de que as Forças Armadas serão cada vez mais o tal do ‘meu Exército’”, escreveu Freixo na rede social.
“O que temos a dizer é que não é céu de brigadeiro em Brasília”, ironiza Paulo Teixeira (PT-SP). Segundo ele, o general Fernando Azevedo saiu porque “não se alinhou à escalada autoritária do presidente da República”. O deputado especula que as mudanças ministeriais podem ser resultado do desgaste “pela criminosa condução da pandemia e o efeito Lula”.
Na mesma rede social, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) questiona: “Em time que está ganhando, se mexe? Hoje o presidente mudou seis quadros importantes, em uma chamada ‘Reforma Ministerial’. Que reforma é essa sem planejamento e no auge da pandemia? Isso não está normal”.
Até o fechamento desta matéria, aguardava-se o desfecho de uma reunião entre os comandantes das três Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – em que se discutiria uma renúncia conjunta aos cargos, como reação à saída do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. As informações são da jornalista Malu Gaspar, em sua coluna no O Globo.
Segundo a colunista, a expectativa era de que os comandantes deixem seus postos ainda hoje. “Além de Edson Pujol, que o presidente Jair Bolsonaro disse hoje nos bastidores que demitiria, participam da reunião em local não revelado o comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, da Aeronáutica, Antônio Carlos Muaretti Bermudez. Ministros militares de Jair Bolsonaro também participam do encontro”, diz a nota.
“A renúncia conjunta dos chefes das Forças Armadas seria algo inédito na história da República. Embora o clima entre os militares seja de muita tensão, auxiliares de Bolsonaro tentam dar à saída dos comandantes caráter de normalidade.”
A diplomacia desastrosa de Bolsonaro
Posted: 30 Mar 2021 06:30 PM PDT
O seguidismo cego ao terraplanismo, que tem no ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump o seu mais destacado representante político em âmbito mundial, traduz a ideia que guia o bolsonarismo. O governo Trump chegou ao fim, mas a ideologia dessa extrema direita segue como a sua principal referência política para Bolsonaro e sua equipe.
As consequências são trágicas, como pode ser visto nos números e cenas de brasileiros lutando pela vida e contra fome. No primeiro caso, o negacionismo bolsonarista em relação à pandemia da Covid-19 deixou o país sem acesso a vacinas, sobretudo de origem chinesa. O sectarismo ideológico da extrema direita levou os brasileiros a perder oportunidades preciosas para uma rápida imunização em massa, como vem ocorrendo em outros país, com destaque para os Estados Unidos.
Essa obtusidade tem reflexos internos também na utilização do potencial tecnológico e de conhecimento científico para a produção de vacinas. Um intercâmbio sem censura ideológico com outros países poderia trazer para o país tecnologia para impulsionar a produção brasileira de imunizantes. Nos dois casos, uma política externa ativa do governo, capitaneada pelo Itamaraty, poderia ter evitado a dimensão da tragédia sanitária que assombra o país.
Outro efeito grave das ideias de Bolsonaro e Ernesto Araújo é a forma de lidar com a crise econômica. O Brasil desenvolveu uma política externa altiva e ativa, como foi chamada nos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que possibilitou uma produtiva relação geopolítica e geoeconômica, sobretudo pelas alianças regionais e pelo protagonismo no BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Os frutos dessa política foram fundamentais para o país combater os efeitos da crise econômica global, que teve mais um pico grave em 2007-2008.
Bolsonaro e Ernesto Araújo romperam com essa política para seguir, cegamente, os brados da Casa Branca. Como parte desse obscurantismo, de inegável sentido criminoso contra a humanidade, o Itamaraty, seguindo os ditames de Bolsonaro, passou a agir para sabotar as relações econômicas sobretudo com a China. O caso mais emblemático é o leilão da tecnologia 5G. A submissão de Bolsonaro ao trumpismo levou à tentativa de sabotagem a Huawei, a maior companhia do mundo de equipamentos para redes e comunicações, assunto que voltou à baila com as grosserias de Ernesto Araújo contra a senadora Kátia Abreu, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado.
O conjunto da obra envolve também o ministro da Economia, Paulo Guedes, sabidamente um sabotador de investimentos fora dos cânones fiscais do circuito financeiro internacional. Com essa premissa, o Brasil perde importantes oportunidades para se integrar ao polo mais dinâmico da economia mundial atualmente. A soma desses fanatismos neoliberal e terraplanista resulta nessa tragédia pela qual passa o país, que precisa urgentemente ser contida.
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