28/02/22 - MERCADANTE: Guerra na Ucrânia: Impactos econômicos e geopolíticos

FONTE: https://www.esmaelmorais.com.br/guerra-na-ucrania-impactos-economicos-e-geopoliticos/

Segundo Aloizio Mercadante, os bloqueios colocam no horizonte também um possível acordo comercial amplo entre russos e chineses

Guerra na Ucrânia: Impactos econômicos e geopolíticos

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Os bloqueios econômicos do Ocidente podem ter algum efeito de curto prazo na economia russa, escreve Mercadante
Bloqueios colocam no horizonte também um possível acordo comercial amplo entre russos e chineses

Por Aloizio Mercadante*

A deflagração da operação de guerra da Rússia sobre a Ucrânia, esta semana, pode ter consequências dramáticas para a já combalida economia brasileira. Isso porque o início do grave conflito militar na Europa pressiona os dois principais pilares da inflação no Brasil: petróleo e alimentos.

Após o anúncio de uma operação militar na Ucrânia pelo presidente russo, Vladmir Putin, o preço do barril do petróleo, que já vinha em alta, superou a marca dos 100 dólares pela primeira vez desde setembro de 2014. Nesse cenário de alta, o Brasil não conta com uma política estratégica para a Petrobras enfrentar a questão pelo abandono dos investimentos no refino e em um sistema integrado de produção, distribuição e comercialização, que gerem ganho e competitividade em relação a outras economias.

Nos governos Bolsonaro e Temer, a Petrobras foi desmantelada e opera pela lógica da Política de Preço de Paridade de Importação. Com isso, a cadeia nacional de petróleo e gás está subjugada aos interesses de 390 empresas importadoras e dos acionistas minoritários da empresa, que impõe uma política de dolarização dos preços dos combustíveis em território nacional. É inacreditável que depois do país atingir a condição de autossuficiente em petróleo, com a descoberta das gigantescas reservas do pré-sal em nossos governos, tenha-se optado por se tornar mero exportador de óleo cru e importador de produtos acabados.

Com isso, em 2021, ano que o povo brasileiro pagou preços recordes na gasolina, no óleo diesel e no gás de cozinha, a Petrobras apresentou o maior lucro de sua história, R$ 106,6 bilhões, um crescimento de 1.400% em relação ao ano anterior. Seguramente, a alta do barril do petróleo decorrente da guerra na Europa, frente à fragilidade da Petrobras, resultará em inflação na veia e um efeito cascata nos custos de produção da economia brasileira.

O segundo ponto de atenção são os possíveis impactos do conflito na importação de fertilizantes da Rússia, especialmente o cloreto de potássio, produto fundamental para a fertilização do solo e indispensável para a agricultura nacional. O Brasil importa 95% do potássio que utiliza e a Rússia é a principal fornecedora desse produto para o país.

Nada justifica uma guerra e acreditamos na construção da paz por meio do diálogo e da diplomacia, mas é inegável que, o fim União Soviética poderia ter gerado uma ação pacificadora do Ocidente. Mas, ao contrário disso, a forças ocidentais da OTAN optaram por aprofundar uma política agressiva de expansão, passando de 12 membros originais para 30 Estados, inclusive com nações fronteiriças à Rússia, como tentam fazer agora com a Ucrânia.

Não é demais lembrar que no início do mês, portanto antes do início da incursão russa, Putin e o presidente da China, Xi Jinping, divulgaram um comunicado em que denunciavam essa expansão da OTAN, que está no centro do atual conflito em curso na Ucrânia.

Esse entendimento entre Rússia e China mexe definitivamente com a geopolítica mundial. Os bloqueios econômicos do Ocidente podem ter algum efeito de curto prazo na economia russa. O embargo ao gasoduto entre Alemanha e Rússia, por exemplo, gerará uma grave crise energética para os alemães, ao mesmo tempo que possibilita a Moscou oferecer gás natural barato para a China por meio do projeto Força da Sibéria.


Os efeitos de médio e longo prazo do bloqueio Ocidental podem até agravar a vulnerabilidade econômica da Rússia, mas colocam no horizonte também um possível acordo comercial amplo entre russos e chineses. Por isso, os desdobramentos dos conflitos na Ucrânia podem resultar na supremacia da economia chinesa no mundo, ao mesmo tempo em que, no Brasil, viveremos o aprofundamento da crise econômica e a explosão inflacionária, em razão de um presidente pária internacional, que é incapaz de entender os desafios, de dialogar, de negociar e de ser respeitado pelas principais lideranças do mundo.

*Aloizio Mercadante, presidente da Fundação Perseu Abramo.

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