Sigismund Schlomo Freud (reprodução)
Luiz Eduardo de Vasconcelos Moreira, Lucas Charafeddine Bulamah e Daniel Kupermann, Outras Palavras
Em 2014 contam-se duas efemérides: os 100 anos da
Psicanálise no Brasil, considerados desde a exposição de Juliano Moreira
na Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, e
os 50 anos de um golpe de estado que resultou numa ditadura (governada
pelos militares, mas com participação e sustentação civis) no Brasil. Do
entrecruzamento desses dois acontecimentos resulta um terceiro: a
presença de um psicanalista em formação na Sociedade Psicanalítica do
Rio de Janeiro (SPRJ)1, nos porões da ditadura militar brasileira: o
chamado caso Amílcar Lobo.
A instalação da Comissão Nacional da Verdade (tendo
em sua composição uma psicanalista), em 16 de maio de 2012, “a fim de
efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a
reconciliação nacional” (Brasil, 2011), deu ensejo ao surgimento de
várias outras comissões da verdade, seja no plano estadual, municipal ou
institucional. Em um depoimento prestado ao jornal Folha de São Paulo
no dia 16 de junho de 20132, Maria Helena Gomes de Souza, viúva de
Amílcar Lobo, reiterando que seu marido não foi torturador, afirma: “A
Comissão da Verdade vai ter que me ouvir. Amílcar foi conivente com a
tortura? Foi” (grifos nossos). Baseados nesse hiato entre ser torturador
e ser conivente com a tortura, ter participado voluntaria ou
involuntariamente, mas com certeza testemunhado os porões da ditadura e
falado sobre isso, que os testemunhos de sua viúva e sua filha buscam
perdoá-lo.
No dia 2 de outubro de 2013, Maria Helena comparece
à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, obedecendo ao
(último) desejo do marido de pedir perdão:
Meu marido nunca participou da tortura, mas não
vim aqui para inocentá-lo. O erro dele foi a omissão. Havia uma
sensação de impunidade e os militares achavam que estavam fazendo o
melhor para o Brasil, que estariam salvando o país, mesmo que, para
isso, estivessem torturando pessoas, o que acho um absurdo.3
E depois: “Eu não o inocento. Ele teve sua participação involuntária, mas teve”.4 Essas falas retomam, por exemplo, a carta enviada por ela à revista Época, publicada no dia 24 de junho de 2010:
Amílcar Lobo nunca confessou ter participado de uma
sessão de tortura ou ter dado orientação sobre isso. Não há registro
desse fato em lugar nenhum. Em detrimento da verdade, Época comete uma
grave injustiça com o único brasileiro que se dispôs a reconhecer sua
culpa, a prejudicar sua vida profissional, afetiva e financeira (…)5.
Nesta mesma revista, em texto publicado seis meses depois6, ela afirma:
(…) Amílcar Lobo era médico convocado para
prestar serviços à nação. Não podia deixar de fazê-lo sob pena de
prisão. (…) Prevaleceu, como verdade absoluta, o que diziam os presos
políticos. O psicanalista, mais que qualquer outro profissional, sabe
que o torturado tem o psiquismo abalado de tal forma que não consegue
ser isento. As instituições falharam em não buscar a verdade. Foram
tendenciosas ao privilegiar o depoimento dos ex-presos políticos. (…) É
fantasioso achar que Amílcar Lobo examinava os torturados para informar
aos agentes da repressão se os presos poderiam continuar a ser
agredidos.
Em depoimento recente à Revista Brasileiros7,
Alessandra, a filha de Lobo, testemunhando pela primeira vez a respeito
do caso, diz:
Meu pai atendeu presos políticos, mas por trás da
participação dele tinha um ser humano. Ele era um médico. Não torturava.
E eu não era nem viva quando a ditadura aconteceu. Por que tenho de
carregar essa culpa? Essa culpa não é realmente minha.
Por outro lado, reafirma: “Meu pai não foi
torturador. Não acredito que ele examinava uma pessoa para dizer se ela
aguentava mais sessões de tortura. Como médico, ele tinha de prestar
socorro. Se aquela pessoa seria mais torturada ao melhorar, é uma
questão dos militares” (não esqueçamos que Lobo servia como oficial do
exército). Reiterando a fala de sua mãe em inúmeras ocasiões, Alessandra
conclui, pretendendo uma prova da boa vontade de Lobo: “Ele também foi o
único que deu informações sobre Rubens Paiva. Meu pai contou o que viu
lá dentro”.
O caso Amílcar Lobo se desdobra, assim, entre seu
atestado de culpa e a alegação de inocência, entre a obediência ao dever
e o dever moral de contar o que viu, entre seu papel como médico na
tortura e sua condição de testemunha dos fatos. Ao mesmo tempo,
continuava sua formação como psicanalista na Sociedade Psicanalítica do
Rio de Janeiro (SPRJ).
Lobos, Carneiros e Leões
Macedo (2011) descreve a seguinte cena: no dia 24
de setembro de 1980, Hélio Pellegrino, psicanalista da SPRJ, coordenava
uma mesa intitulada “Psicanálise e Fascismo”, parte de um simpósio sobre
Psicanálise e Política, quando foi interpelado por um jovem:
“Hélio, o que você faria se soubesse que um de
seus colegas psicanalistas é médico de um centro militar de torturas?”.
“Faria tudo o que estivesse em meu alcance para que ele seja punido”.
“Então informo a você que ele estava em minhas sessões de tortura, bem
como nas de meus amigos”. “Você acaba de fazer publicamente uma denúncia
de extrema gravidade.” “E você fez uma declaração que me enche de
esperança”. “Eu a mantenho”. Começava o caso Lobo (Op. cit., p. 85).
Apesar de os textos apresentados neste simpósio
terem sido coligidos em livro (Clínica Social de Psicanálise, 1981), as
discussões que tenham eventualmente se seguido às mesas não foram
transcritas nem publicadas. Não foi este o começo do “caso Lobo”, que já
havia sido objeto de denúncias para os organismos burocráticos da
comunidade psicanalítica filiada à IPA; tampouco foi seu fim, tendo, na
verdade, sido o estopim para que se tornasse público. Dele resulta um
conjunto de publicações que compõem a trama do próprio caso (cf.
Coimbra, 1995; Kupermann 1996, 2014; Lobo, 1989; Roudinesco e Plon,
1998; Vianna, 1994, 1997, 1998), disponibilizando inclusive grande
número de correspondências trocadas por seus atores.
Graças a esse conjunto sabemos, por exemplo, que o
jovem se chamava Rômulo Noronha de Albuquerque – um preso político que
reconhecera na equipe de torturadores o Dr. Amílcar Lobo Moreira da
Silva – e que já em 1982 a comunidade psicanalítica sabia (ou poderia
saber) da denúncia envolvendo as atividades de Lobo (ver carta de
Pellegrino reproduzida em Cerqueira Filho, 1982, p. 213).
Esta denúncia tomou a forma da reprodução de um
recorte da edição de número 102 do diário clandestino brasileiro Voz
Operária, de agosto de 1973, que dizia que
(…) Outro oficial do Exército, da equipe de
torturadores, é o tenente médico Amílcar Lobo Moreira, Esse (sic)
oficial orienta os torturadores sobre a resistência física do preso
político. E como psicanalista é o responsável pelo ‘acompanhamento’ da
saúde mental do torturado e da melhor maneira de arrancar confissões”
(Langer e Bauleo, 1973, p. 93).
Os autores acrescentam: “Uma nota ao pé da página,
escrita a mão, diz o seguinte: ‘Amílcar Lobo Moreira é candidato da
Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro”, para em seguida fazer a
primeira aproximação do caso do psicanalista torturador com a situação
da Psicanálise na Alemanha do período nazista e a “política de
salvamento” – da instituição, bem entendido – promovida por Ernst
Jones8.
Marie Langer, psicanalista argentina nascida em
Viena e emigrada diante da ascensão do nazismo, fez o recorte de jornal
circular ao encaminhar a denúncia ao presidente da IPA – à época, Serge
Lebovici –, que indagou aos responsáveis pelas sociedades psicanalíticas
do Rio de Janeiro filiadas à IPA9 sobre a veracidade do caso, recebendo
como resposta um desmentido tanto de Leão Cabernite, analista didata
membro da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ) e indicado
como analista de Lobo no recorte do Voz Operária, quanto de David
Zimerman, membro da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre e então
presidente da COPAL, órgão que reunia as sociedades psicanalíticas da
América Latina filiadas à IPA (Roudinesco e Plon, 1998, p. 90).
Uma investigação grafológica comparando as notas
manuscritas do recorte de jornal com as fichas de inscrição do III
Congresso Brasileiro de Psicanálise chegou, em 1974, à conclusão de que
as notas eram da psicanalista Helena Besserman Vianna, da Sociedade
Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). Enquanto Lobo
recebeu uma declaração10 assinada pelo General Sylvio Frota, comandante
do I Exército, atestando seus “procedimentos dignos e humanos” e
desfazendo “intrigas e aleivosias”, Vianna sofreria retaliações
institucionais: já em março de 1975, mesmo cumprindo todos os requisitos
para se tornar membro titular da SBPRJ, teve por escrito seu pedido
negado com base no artigo 13 dos estatutos, que pede que os candidatos
sejam julgados pelo Conselho com base em seu “caráter” e “normas éticas e
técnicas”.
O Conselho pedia sigilo sobre o assunto e apenas
após longa troca de cartas nos meses seguintes concede a Vianna uma
reunião em 24 de junho de 1975, em que lhe relataria os motivos da
rejeição de seu pedido: suposto plágio nos trabalhos apresentados, a
acusação de ter sido ela a responsável pela denúncia contra Lobo e o
fato de ter sido fichada no Departamento de Ordem Política e Social
(DOPS) desviando-se, portanto, da “neutralidade” exigida pela
instituição (Vianna, 1994, p. 59). Em julho de 1975, Vianna vai ao
Congresso Internacional de Psicanálise, em Londres, e apresenta as
cartas trocadas ao presidente da IPA, Lebovici, que parece não
reconhecer o caso, e a Daniel Wildlöcher11, então vice-presidente da
IPA. Com a afirmação, pelo Conselho Executivo da IPA, de que o candidato
que fora denunciado não mais participava da SPRJ, junto a uma oferta de
“panos quentes”, exigindo a incineração das cartas trocadas (o que não
cumpriu), Vianna torna-se titular no final de 1976, com o mesmo trabalho
apresentado anteriormente.
Ao mesmo tempo, Lobo havia se retirado
voluntariamente, enquanto sua situação era julgada pela SPRJ. Sem
nenhuma decisão por parte da instituição, Lobo volta ao Instituto de
Psicanálise da SPRJ em 1976, dois anos depois de ter saído do exército,
para continuar sua formação de psicanalista. Sem nenhuma condenação
formal e, portanto, sem nenhuma penalidade para cumprir, seu caminho não
se mostrou fácil: nenhum analista didata aceitou tomá-lo em análise, ou
seja, sua formação não avança.
O caso Lobo ganha nova projeção quando, no final de
1979 e início de 1980, uma nova crise institucional eclode da SBPRJ
envolvendo a questão do currículo de formação de analistas, a aceitação
de membros não-médicos como candidatos à formação analítica e a
hierarquia institucional. O estopim é, mais uma vez, uma carta, desta
vez de Manoel T. Moreira Lyra, enviada a todos os membros da SBPRJ,
mencionando a reunião sigilosa do Conselho da SBPRJ na qual se deliberou
sobre as denúncias envolvendo Lobo. A situação recrudesce a tal ponto
que no dia 15 de setembro de 1980 convoca-se uma assembleia para debater
a situação de crise, o que resulta numa assembleia permanente dita “de
crise” (Vianna, 1994, pp. 84-85).
A crise aumenta ainda mais e alcança a vizinha
SPRJ, da qual, lembremos, participa Lobo, bem como Hélio Pellegrino,
Eduardo Mascarenhas e Wilson Chebabi. Uma reportagem do Jornal do
Brasil, intitulada “Os barões da Psicanálise”12, torna a crise conhecida
do grande público. Pellegrino, Mascarenhas e Chebabi denunciam “os
altos custos do tratamento, a gerontocracia das instituições
psicanalíticas, as discriminações ideológicas contra candidatos à
formação, o falso ‘apolitismo’, e até mesmo a ignorância das obras de
Freud”. No dia seguinte, Rômulo Noronha de Albuquerque faz a denúncia,
também pública, da atuação de Amílcar Lobo como torturador. Estava dado,
assim, o entrelaçamento das denúncias contra Lobo e a crise dos barões
da psicanálise.
Como prometido, Pellegrino levou adiante a denúncia
em carta já citada, endereçada à presidência da SPRJ (cf. Cerqueira
Filho, 1982, p. 213). No dia 10 de outubro de 1980, a carta informando a
Lobo sua exclusão do Instituto de Ensino da Psicanálise da SPRJ
encerrando, na prática, qualquer possibilidade de concluir sua formação,
é enviada a todos os membros da instituição. No dia 8 de outubro,
Pellegrino e Mascarenhas são expulsos da SPRJ por conta das críticas
publicadas na imprensa. Sua expulsão levou a protestos dos membros da
própria SPRJ e foi revertida em reunião do dia 21 de outubro, por conta
de uma suposta retratação dos expulsos encaminhada aos membros por meio
de uma circular em 1 de dezembro. Esta retratação, por sua vez, é
repudiada por Pellegrino e Mascarenhas em carta de 14 de janeiro de
1981, o que leva a SPRJ a confirmar sua expulsão em 27 de janeiro. A
primeira carta de apoio aos dois é enviada à direção da SPRJ em 1 de
fevereiro.
No dia 5 de fevereiro de 1981, a militante e presa
política Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da “Casa da Morte”,
centro clandestino de tortura e assassinatos em Petrópolis, reconhece
seu torturador em seu próprio consultório: Amílcar Lobo que, sinistra
ironia, adotava o codinome de “Dr. Carneiro” junto à equipe de tortura.
Acrescido da expulsão de Pellegrino e Mascarenhas e da crise na SPRJ,
este fato ganha a capa da edição da revista Veja de 11 de fevereiro de
1981. O reencontro entre Inês e Lobo é publicado também na revista Istoé
desta mesma semana, junto com “A casa do horrores”, na qual se reporta a
existência da “Casa da Morte”13. A notícia de que uma presa política
torturada havia reconhecido seu torturador já circulara na semana
anterior, e os jornais impressos já publicavam reportagens.
No dia 12 de fevereiro de 1981, nova circular sobre Amílcar Lobo é enviada aos membros da SPRJ:
diante da repercussão havida com a publicação
de notícias em diversos órgãos da imprensa sobre o Dr. Amílcar Lobo
Moreira da Silva, envolvendo a SPRJ, sinto-me [Victor Manoel Andrade,
presidente da SPRJ] no indeclinável dever de (…) dirigir-me a todo o
quadro social e aos candidatos do IEP para prestar os esclarecimentos
que a situação requer.
Além disso, fica claro o motivo da expulsão do
candidato: contrariamente aos estatutos, sua formação esteve
interrompida por mais de seis anos (Cerqueira Filho,1982, p. 215)14.
Em virtude de ter assinado a primeira carta de
apoio a Pellegrino e Mascarenhas, Ernesto La Porta é convocado a uma
reunião com a Diretoria e o Órgão da Disciplina dos Títulos em que
deveria negar ou afirmar suas posições (cf. Cerqueira Filho, 1982, p.
206) – tornadas públicas por conta da reprodução da carta na edição de 1
de janeiro de 1981 do Jornal do Brasil – bem como sua declaração à
revista Veja (op. cit.) de que as investigações sobre o caso Lobo
esbarraram em Leão Cabernite. A intransigência da direção da SPRJ em
punir Pellegrino, Mascarenhas e os signatários da carta de apoio a eles
leva à divulgação de uma carta de repúdio à direção da SPRJ, subscrita
por 32 assinaturas. Esta carta daria origem ao chamado “Fórum de
Debates” (Barreto, 1982), que “passa a ser lugar dos mais importantes na
luta de oposição no âmbito das sociedades psicanalíticas” (Vianna,
1994, p. 97).
Ainda em 1981, a Ordem dos Advogados do Brasil
encaminha um ofício com depoimentos de presos torturados por Amílcar
Lobo, que são traduzidos e encaminhados para a IPA, sem suscitar
resposta. Vianna entrega pessoalmente a Lebovici, então presidente da
IPA, um conjunto de provas e documentos sobre o caso Lobo mostrando que
sua denúncia original não era, portanto, caluniosa, e pedindo a revisão
das declarações da IPA, sem sucesso. No entanto, uma comissão de
sindicância – enviada à SPRJ em outubro de 1981 – propôs inúmeras
modificações na hierarquia da instituição e solicitou alterações no
processo de escolha de analistas didatas. Por outro lado, a comissão
reafirmou que “não haverá reconhecimento de qualquer grupo que assuma a
prerrogativa de organizar reuniões independentemente da Sociedade. O
Conselho tem em mente o Fórum de Debates (…)” (carta reproduzida em
Cerqueira Filho, 1982, p. 241).
Cinco anos depois destes acontecimentos, em 1986, Lobo dá uma entrevista à revista Veja de 3 de setembro em que afirma:
Eu não sei precisar o dia, mas foi no início de
1971. (…) Fui chamado às 2 da manhã para ir ao quartel, onde deveria
atender um preso. (…) Eu nunca havia presenciado um quadro desse tipo.
Aquele homem levara uma surra como eu nunca vira. Fiquei na cela com ele
durante uns 15 minutos. Durante todo o tempo ele esteve deitado. Estava
consciente. Não gemia. Disse só duas palavras: – Rubens Paiva. (…) No
dia seguinte, ou melhor, no mesmo dia, quando cheguei ao quartel [para o
turno regular] um oficial me falou: – Olha, aquele cara morreu.
Pela primeira vez havia uma testemunha que afirmava
o que sempre se suspeitou: Rubens Paiva morrera por conta da tortura
que sofrera. O caso Lobo voltava, mais uma vez, à tona.
No dia 14 de setembro de 1986, o Jornal do Brasil
dá uma chamada de capa para uma entrevista15 exclusiva com Lobo, em que
ele retoma o testemunho sobre a morte de Rubens Paiva, bem como sobre o
período em que esteve em formação psicanalítica na SPRJ e sua relação
com Cabernite. Dois dias depois, Cabernite se defende em texto publicado
no mesmo jornal16 reafirmando que não havia provas, quando da denúncia
de Helena Besserman Vianna, que condenassem Amílcar Lobo. Helena Vianna
se manifesta em texto publicado também no Jornal do Brasil no dia 26 de
outubro exigindo que explicassem “(…) em nome de que ética, de que
psicanálise, de que princípio institucional acobertaram e acolheram
médico, psicanalista em formação, que prestava atendimento a presos
políticos torturados, como membro de equipe de tortura. Ou que
reconheçam de público seus erros (…)” (Vianna, 1994, pp. 110-111).
Diante de mais essa rodada de reportagens na imprensa, Vianna volta a
cobrar uma resposta da IPA e uma retratação da SPRJ. A resposta
institucional vem na forma de uma nota oficial publicada na grande
imprensa na qual declara reconhecer seus equívocos e assumir sua
responsabilidade, dando o caso por encerrado (Vianna, 1994, p. 127).
Em 1988, o Conselho Estadual de Medicina do Rio de
Janeiro (CREMERJ) decidiu revogar o direito de Lobo de exercer a
profissão, decisão esta que é seguida pelo Conselho Federal de Medicina
(CFM), um ano depois. Em 1992, Leão Cabernite, por sua vez, é julgado
culpado pelo CREMERJ; o CFM, porém, decide por uma suspensão de 30 dias e
não por revogar seus direitos profissionais. A IPA, no entanto, o
expulsa dos seus quadros.
Em 1994, Helena Vianna publica Não conte a
ninguém…, em que apresenta a cronologia do caso Lobo e oferece uma
interpretação, baseada na concepção psicanalítica da transmissão
psíquica transgeracional, para este triste capítulo da história da
psicanálise no Brasil. Vianna retraça a origem da implantação da
Psicanálise no Rio de Janeiro até a vinda, da Europa do pós-guerra, de
dois analistas didatas para a formação de psicanalistas. Um deles, Wener
Kemper, participara do Instituto Göring, o organismo da Alemanha
nazista responsável por coordenar as psicoterapias no III Reich e, no
que concerne à Psicanálise, por extingui-la como “ciência judia”, ainda
que se houvesse tentado uma “política de salvação” baseada no suposto
caráter apolítico da psicanálise (cf. Katz, 1982, p. 260). Ora, toda a
reação da SPRJ às denúncias de Vianna foi baseada nesse mesmo suposto
caráter apolítico da Psicanálise: a SPRJ, sendo uma sociedade
científica, não deveria lidar com problemas políticos que, por serem
políticos, ser-lhe-iam externos. Dessa maneira foi possível que Kemper,
que fora colaborador do regime nazista, fosse o analista de Leão
Cabernite – de origem judaica – que, por sua vez, analisou Lobo,
participante de uma equipe de tortura durante os anos de chumbo no
Brasil. Esta mesma linha de análise – a crise da Psicanálise como fruto
da afirmação das sociedades psicanalíticas de seu caráter apolítico – é
seguida por Coimbra (1995) em sua leitura do caso Lobo, ainda que
embasada em outro referencial teórico.
Por fim, o livro de Vianna é traduzido para o
francês, em versão ampliada (Vianna, 1997): abarca agora, também, a
criação do Grupo Pró-Ética, constituído como reação à decisão da
assembleia geral da SPRJ de recusar as conclusões do comitê de ética
sobre o caso Amilcar Lobo, que reconhecia Leão Cabernite como
responsável e culpado de graves falhas éticas. A IPA, ao mesmo tempo em
que confirma a legalidade do procedimento administrativo de recusa ao
relatório do comitê de ética, garante que o Grupo Pró-Ética, caso
decidisse pela fundação de uma nova instituição, teria todo seu apoio e
reconhecimento. Além disso, Vianna apresenta também a carta de
Wildlöcher, as cartas e um memorando de Lebovici no qual este se defende
e reafirma a correção de suas decisões tomadas como presidente da IPA,
mesmo com os apelos de Horacio Etchegoyen, psicanalista argentino e o
primeiro presidente latino-americano da IPA, para que reconhecesse seus
erros. Um prefácio de Etchegoyen é publicado na tradução para o espanhol
do livro de Vianna, publicado na argentina (Vianna, 1998), no qual
repassa e torna públicos os erros da IPA.
Amílicar Lobo publica suas memórias, A hora do
lobo, a hora do carneiro, em 1989, apresentando-se, na avaliação de
Helena Vianna (1994, p. 129), como vítima, nada envergonhado; na
verdade, como nos faz crer o prefácio assinado pelo então célebre pastor
Jonas Rezende, disposto a começar de novo (Lobo, 1989, p. 12).
Um de nós, em dissertação de mestrado defendida em
1992, publicada na forma de livro (Kupermann, 1996; 2014), destacou
quatro aspectos das memórias de Lobo que nos servirão como guia de
leitura para à elucidação das implicações do processo de
institucionalização da psicanálise na produção do que, desde então,
ficou conhecido como o “caso Amílcar Lobo”. São eles: a identidade entre
as práticas do Exército e as da SPRJ; a negação institucional, por
parte da SPRJ, de palavras ou pensamentos distintos do que Lobo vivia no
DOI-CODI; a identificação de Lobo, na posição de candidato em formação
psicanalítica, com os torturados que atendia nos porões da ditadura; a
introjeção das regras e ideais das instituições psicanalíticas
(Kupermann, 1996, p. 188)17.
Sim, Amílcar Lobo, um membro ativo do corpo de
torturadores da ditadura militar brasileira era, portanto, médico e
ansiava também tornar-se psicanalista, optando pela formação em
psicanálise oferecida pela SPRJ, uma das duas instituições filiadas à
IPA no Rio de Janeiro. A questão que, no entanto, insiste em perturbar
as tentativas já ensaiadas para o entendimento desse episódio é: a
relação entre Lobo, um médico torturador, e Lobo, um psicanalista em
formação, é de mera casualidade? Ou poder-se-ia dizer que o campo
psicanalítico estava, com efeito, implicado nas práticas mais sinistras
do estado de exceção?
A “produção de obediência” no movimento psicanalítico
A formação de novos analistas e o sistema erigido
pela IPA para que isso fosse possível internacionalmente é o ponto chave
para se compreender os impasses da transmissão do saber e da prática
psicanalítica. Freud
atinha-se à ilusão de que se desenvolvendo internamente de acordo com
seu próprio ritmo e vencendo a hipocrisia e as resistências advindas da
cultura, a psicanálise se afirmaria naturalmente. Todavia, os
regulamentos e as proibições impostos pela IPA para a padronização da
formação psicanalítica não apenas afetaram severamente o desenvolvimento
interno da psicanálise, como efetivamente promoveram desvios e, mesmo,
distorções no curso do processo de institucionalização da psicanálise.
Os regulamentos e as proibições institucionais
incidiram sobre um ponto nodal da formação psicanalítica, a análise do
analista, batizada de análise didática por vincular ensino e experiência
do inconsciente. A ideia de que o candidato deve ter experimentado os
efeitos da análise em si próprio para poder atuar como analista sugere,
ainda que de maneira implícita, que a transferência é o regulador da
transmissão do saber psicanalítico, estando portanto na base da
institucionalização da própria psicanálise (cf. Kupermann, 2014).
As relações entre a psicanálise institucionalizada e
o poder dominante no Brasil dos “anos de chumbo” indicam,
inequivocamente, o fato de que a psicanálise é indissociável do meio
cultural no qual se insere institucionalmente. Em sua origem, a
psicanálise idealizada por Freud pretendia estabelecer-se como um saber
crítico sobre a cultura, apresentando propósitos reformistas e
transformadores dos estilos de vida nela exercidos. Portanto, haveria
uma tensão original entre o saber e prática psicanalítica e a cultura
vigente. Os destinos que esta tensão adotou ao longo da história da
institucionalização da psicanálise são o ponto central da nossa
investigação.
“Provocar oposição e despertar rancor é o destino inevitável da psicanálise”, dizia Freud
em 1914 (1914/1980, p. 17), situando a psicanálise em uma posição de
potência transgressora. O inconsciente, a sexualidade infantil, o
recalque e, finalmente, o descentramento da razão, pretendiam revelar a
incômoda verdade sobre o ser humano, desmascarando a “hipocrisia
cultural”; portanto, desde o início da aventura freudiana não se
esperaria menos que uma enorme resistência da cultura ao confrontar-se
com a psicanálise.
Todavia, o lugar cultural destinado à psicanálise, já pouco antes da morte de Freud
e especialmente em meados do século XX, estava longe daquele imaginado
por seu criador. Tornando-se socialmente aceita e, mesmo, prestigiosa, e
tendo seu saber e sua prática terapêutica reconhecida, a “peste” (como
fora apelidada) passara a ser “respeitável e normal”, tanto na América
do Norte como nos grandes centros da Europa (Gitelson, 1954, p. 178). Ou
seja, a história revela que não apenas a psicanálise não é uma prática
intrinsecamente transgressora ou “revolucionária” – como demonstrou
Castel (1978) em crítica ao “psicanalismo”, referindo-se ao contexto
psicanalítico francês do final do século XX – como, inclusive, pode ser
usada como instrumento de adaptação, conformismo social e manutenção do
dos poderes instituídos18.
A análise didática, regulamentada e
institucionalizada, teve origem em uma ideia de Sándor Ferenczi.
Reagindo ao trauma sofrido pela comunidade psicanalítica com ruptura de
Jung – que chegara a presidente da IPA -, em 1912, Ferenczi imaginou que
se os colaboradores mais próximos de Freud fossem analisados
pessoalmente pelo mestre, poderiam “representar a teoria pura, não
adulterada por complexos pessoais” (Grosskurth, 1991, p. 46). Em
seguida, estes mesmos discípulos analisariam outros aspirantes a
psicanalistas em diferentes centros da Europa – o que logo em seguida
ocorreria também nos Estados Unidos e em outros continentes – evitando
novas dissensões e novos acidentes na transmissão da psicanálise. Esta
proposição revela, assim, in status nascendi e a um só tempo, o
paradigma da formação psicanalítica e a origem de seu próprio malogro;
paradigma, conforme vimos, representado pela análise didática. Com o
intuito de se evitar “adulterações teóricas”, descobria-se o poder da
manipulação da transferência não apenas para a transmissão da
experiência do inconsciente, mas também para o bom funcionamento
institucional – bom comportamento teórico dos iniciantes e manutenção do
status quo e dos poderes institucionais.
Com efeito, a transferência necessária a toda
análise se tornava um instrumento alienante para a doutrinação teórica e
política, cujos efeitos se farão sentir desde muito cedo na história da
psicanálise. Paralelamente, começavam a ser notadas mudanças no perfil
dos candidatos que se inscreviam à formação nos institutos, que
aparentavam ser bem-adaptados, levemente neuróticos, realistas e…
demasiado normais! A esse respeito, é exemplar o testemunho de Anna
Freud:
Quando examinamos as personalidades daqueles
que por auto-seleção constituíram a primeira geração de analistas, suas
características deixam pouca dúvida. Eram não-conformistas,
questionadores, do tipo que não se satisfazia com os limites impostos ao
conhecimento. Entre eles, encontravam-se sonhadores e outros que
conheciam o sofrimento neurótico por tê-lo vivido. Esse tipo de
recrutamento transformou-se radicalmente desde que a formação
psicanalítica foi institucionalizada e, em contornos mais estritos, faz
apelo a um tipo diferente de personalidade. Além do mais, a auto-seleção
deu lugar a um minucioso exame dos candidatos. Donde a exclusão
daqueles que são suspeitos de alterações mentais, dos excêntricos, dos
autodidatas, dos grandes imaginativos; em vantagem daqueles que, bem
acomodados e bem preparados, são trabalhadores o suficiente para
ambicionar maior eficácia profissional (Freud, 1968, p. 200).
A emergência doa chamados “normal candidates” era, a
princípio, diagnosticada – pela grande maioria daqueles que se
propunham a pensar a questão em meados do século passado – como efeito
da intromissão de fatores externos ao campo psicanalítico; quando muito,
reflexos de uma transformação cultural mais ampla. Maxwell Gitelson,
psicanalista didata norte-americano, foi o que mais se aproximou da
percepção de que o processo de institucionalização da psicanálise era
responsável por essa mudança no perfil “psicopatológico” dos candidatos à
formação. Gitelson (1954) creditava a emergência de candidatos
“normais” ao fato de estarem culturalmente impregnados de uma atmosfera
psicanalítica: a psicanálise havia se tornado uma nova figura da
autoridade no campo social, o que causaria uma camada adicional de
resistências egossintônicas veiculadas por leituras, aulas ou análises
“selvagens” praticadas por colegas ou professores, possivelmente
conduzindo a uma “fachada de pseudonormalidade”. O campo psicanalítico,
na análise de Gitelson (ibid., p. 178), havia se tornado ele próprio
“uma das imagos inconscientes de autoridade”, ou, em termos
psicanalíticos, uma instância superegóica.
Por seu turno, a leitura genealógica de Michael
Balint (1948) irá apontar uma função superegóica no próprio dispositivo
da análise didática e, de quebra, implicar a história do movimento
psicanalítico na produção daquilo que outros psicanalistas
contentavam-se em diagnosticar de um ponto de vista distanciado e
asséptico. O ponto de partida de Balint (1948) era a percepção de uma
tendência de os candidatos serem “excessivamente respeitosos” e
“obedientes” com seus analistas didatas – sintomas de uma formação
superegóica que obrigava os candidatos a incorporarem maciçamente os
ideais e as interpretações de seus analistas sem questionamento. Nesse
sentido, mesmo que um candidato com um perfil excêntrico – como aqueles
da primeira geração descritos por Anna Freud – fosse selecionado para a
formação, seria submetido a uma “intropressão de um superego” (op. cit.,
p. 167) – verdadeira lavagem do inconsciente – que o deixaria frente a
duas alternativas ingratas: abandonar a formação, ou tornar-se, por fim,
conformado e obediente.
Balint detectava também uma extrema aridez nas
discussões acerca da formação psicanalítica no interior da Associação
Psicanalítica Internacional. O dogmatismo se revelava na total ausência
de reflexão e de senso crítico que, habitualmente, caracteriza o
exercício da psicanálise, servindo à proibição do pensamento, ao
recalque, e à reprodução do modelo que seria forçosamente incorporado
nos aspirantes à psicanálise – através do veículo da identificação com o
analista didata. As expensas, decerto, da afirmação criativa da
singularidade, estando os candidatos mais questionadores sob constante
ameaça de expulsão. É, portanto, através de uma formação psicanalítica
superegoica, na qual a manipulação da transferência tem como efeito
maior uma produção de obediência, que as formas instituídas de poder na
psicanálise asseguraram seu conforto.
Psicanálise e ditadura
Como vimos, aos candidatos à formação psicanalítica
em análise didática era imposta uma fórmula transferencial totalitária
muito semelhante àquela veiculada pelo Estado brasileiro durante o
regime militar: “ame-o ou deixe-o”. Se aos cidadãos “subversivos”
restava a segunda proposição da fórmula, deixar o país (no melhor dos
casos) ou deixar de viver, sobre os candidatos menos conformados pairava
a ameaça de abandono da formação psicanalítica, uma vez que a única
oportunidade de formação, na época, resumia-se às instituições filiadas à
IPA.
A similitude entre a instituição psicanalítica e o
Estado militar tinha neste bordão a ilustração de um enlaçamento mais
estrutural: a reprodução, em nível micro, da ordem
político-institucional então vigente. Hélio Pellegrino classificava de
“fascista” a estrutura das sociedades psicanalíticas, sublinhando que
“pelo dedo se conhece o gigante; as microinstituições reproduzem, em
escala liliputiana, as vicissitudes estruturais e as mazelas das
macroinstituições” (Pellegrino, 1982, p. 31). Além disso, ainda segundo
Pellegrino, a “ideologia do apoliticismo” produzia um “psicanalismo
alienante”, através do qual as instituições psicanalíticas se colocavam
camufladamente a serviço do sistema político-social vigente (ibid., p.
41). Em síntese, uma sociedade ditatorial e autoritária, baseada na
acumulação de poder e de privilégios em mãos minoritárias, encontrava na
sociedade psicanalítica seu fac-símile em escala reduzida.
Desse modo, retomando o que foi acima destacado, a
manipulação da transferência empreendida nas análises didáticas produzia
efeitos anti-analíticos, com destaque para a identificação com o
analista didata e a produção de obediência (cf. Kupermann, 2014). A
análise didática elevava o didata à posição de juiz e representante
autorizado da instituição, recaindo sobre o espaço analítico uma sombra
de retaliação que pende a análise inevitavelmente para o lado da
obediência, falseando a própria relação analítica (cf. Birman, 1982).
Pellegrino acreditava que a elite minoritária dos psicanalistas didatas
detentores do poder institucional – o “baronato” – era mantida por essa
mesma falsificação alienante do sujeito de seu próprio desejo. Assim,
acrescenta:
Os candidatos, para chegarem a analistas, precisam
antes e acima de tudo obedecer, isto é: submeter-se aos barões. Após
receberem o brevet de analistas, como membros associados, nem por isto
conquistam direito de voto. Esta possibilidade só virá anos depois,
tempo em que o associado terá que dar provas de estar bem analisado,
isto é: conformado, alienado, intimidado, eunuco. Aí poderá pleitear o
título de membro efetivo, com direito a voto (Pellegrino, 1982, p. 41).
O caso Amílcar Lobo, situando-se no entrecruzamento
da instituição psicanalítica e do estado de exceção, como candidato em
formação analítica e médico torturador, não somente revela o enlace
destas duas realidades macro e microinstitucionais; pode ainda ser
considerado como uma produção do sistema de formação psicanalítica –
sobretudo dos efeitos da manipulação da transferência nas análises
didáticas. A análise do relato autobiográfico de Lobo, A hora do lobo, a
hora do carneiro (1989), nos permite observar que a SPRJ, sociedade à
qual pertenceu, não apenas acobertou e foi conivente com as práticas de
tortura, como também colaborou ativamente para a manutenção da situação
de ter candidato em formação psicanalítica participante destas mesmas
práticas.
Demonstraremos, a seguir, os quatro aspectos do
depoimento de Lobo destacados por Daniel Kupermann em Transferências
cruzadas, que nos permitem explicitar a forma pela qual o caso foi,
também, uma produção das próprias instituições19 psicanalíticas: 1) a
identidade entre as práticas do Regime Militar e as da sociedade
psicanalítica à qual pertencia; 2) a busca por uma palavra ou pensamento
diferente do vigia no DOI-CODI, o que lhe teria sido negado
institucionalmente; 3) a identificação de Lobo em sua formação
psicanalítica com os torturados que atendia nos porões da ditadura; e 4)
a introjeção maciça de interpretações, regulamentos e ideais propagados
pelas instituições psicanalíticas (Kupermann, 1996; 2014).
Em relação à identidade entre as práticas do
Exército e as da sociedade psicanalítica, Pellegrino (1982, p.45)
ressalta que, baseado no artigo 33 do Regulamento da Formação de
Psicanalistas do Instituto de Psicanálise da SPRJ, a formação de Lobo
poderia ter sido interrompida, o que não ocorreu em função de uma “plena
e prática definição política de seu didata”. O artigo previa a
interrupção da formação do candidato em casos de a) surgimento de
enfermidade grave que impeça o exercício da psicanálise; b) distúrbios e
conduta que atentem contra os princípios do código de ética médica; e
c) abandono do processo analítico – estando Lobo incluído em todos eles.
Mas qual seria, segundo Pellegrino, a “enfermidade”
grave de Lobo? Foram consideradas, de acordo com uma nosologia
inspirada na psicanálise, as seguintes alternativas: 1) perversão
sádica; 2) caracteriopatia fascista grave, usada como justificativa
ideológica para a prática de tortura; 3) pusilanimidade radical e
indiscriminada diante de ordens superiores; e 4) mistura dos três itens,
que não são excludentes (Pellegrino, 1982). Na leitura de suas
memórias, fica patente que Lobo não se apresenta como defensor das
práticas de tortura das quais participava mantendo os presos vivos para
que seus verdugos continuassem o interrogatório, referindo-se inclusive
aos outros membros da equipe de tortura como pessoas “extremamente
sádicas” (Lobo, 1989, p. 69), atribuindo sua participação exclusivamente
ao medo. Ora, mas não seria este o principal sintoma antianalítico que
alguns sistemas de formação psicanalítica tendem a produzir? Mesmo que
em seu testemunho, misto de confissão catártica e auto-absolvição, não
confessasse um gosto particular pela tortura, Lobo revela, justamente
“pusilanimidade radical e indiscriminada diante de ordens superiores”,
confirmando a avaliação de Balint (1948) acerca da “intropressão do
superego” aos quais os candidatos em formação psicanalítica estariam
sujeitos, tornando-se excessivamente obedientes, não apenas aos seus
analistas didatas, mas a todos os ideais veiculados pelas instituições
das quais participam.
Quando a denúncia de Cuestionamos veio à tona, em
1973, Lobo escreve que havia tentado discutir seu caso nas reuniões
semanais com os membros da SPRJ, mas que nenhum deles, “nem mesmo o Dr.
La Porta, teve a lucidez de tecer ao menos um comentário”. No último dia
de aula decidiu-se por “discutir abertamente e sem rodeios, com os
colegas de turma e a professora, este tema tão chocante frente aos
ensinamentos aprendidos neste curso (…) mas em vão” (Lobo, 1989, p. 53).
Ora, por que esse silêncio? A psicanálise não tinha nada a dizer sobre o
caso? Não se chocava com a tortura? Ou a psicanálise, como praticada
naquela sociedade, não podia dizê-lo, rebatendo com risos, enfados e
galhofas sem humor aos testemunhos de Lobo sobre o que ocorria no
DOI-CODI? Lobo conta, inclusive, que um de seus colegas de formação
psicanalítica, antecipando seu relato, repetia: “Lá vem mais uma
história dos ‘macacons’. Conta lá, Amílcar – e ria gostosamente” (Lobo,
1989, p. 76).
Conforme vimos, um perfeito trabalho em conjunto
entre as direções da SPRJ, da SBPRJ e da polícia revelou que a
psicanalista Helena Besserman Vianna fora a autora da denúncia publicada
na revista Cuestionamos. Desvendada a identidade da “deduradora”, como
se disse na ocasião, o coronel Cid Nolli comentou com Lobo “(…) se esta
sociedade psicanalítica está criando assim tantos problemas nesta área,
nós fechamos esta birosca e já. Quanto a esta Dra. Helena, pode estar
certo: a gente vai colocar uma bomba no consultório dela e (…) explodir
tudo”. (Lobo, 1989, p. 70).
Leão Cabernite, ex-analista didata de Lobo e,
ironicamente, homônimo do capitão Leão – chefe do Serviço de Informações
do 1º Batalhão e Polícia do Exército, onde Lobo trabalhou – sugeriu-lhe
em outra ocasião: “Amílcar, você que tem um conhecimento com estes
militares, por que não sugere a eles que ponham uma bomba no consultório
do Hélio. Esse cara já ultrapassou todos os limites e só tem este
jeito” (Lobo, 1989, p. 88). Seria possível a uma mente “pusilânime
radical diante de ordens superiores” encontrar sozinha a diferença entre
as práticas do Regime Militar e aquelas da Sociedade Psicanalítica?
Quando, em 1976, tentou retomar sua formação
psicanalítica, após a interrupção voluntária em 1974, Lobo não foi
aceito em análise por nenhum didata (à exceção de Galina Schneider, sob a
condição, porém, de que sua análise não fosse didática). Optou, então,
por iniciar uma análise com um membro psicanalista não-didata da
Sociedade aguardando sua titulação futura, o que não ocorreu – em 1980,
seu analista completou sessenta anos e não poderia mais tornar-se
didata, de acordo com os novos estatutos. Contrariado por ver seu
projeto de tornar psicanalista impossibilitado definitivamente, Lobo
comenta: “Mil vezes melhor uma sessão de interrogatórios num
“pau-de-arara” ou uma tentativa simulada de afogamento. Foi uma
verdadeira tortura esperar este tempo todo uma resolução prometida para
receber, depois de quatro anos, verdadeiros socos e pontapés na face
(Lobo, 1989, p. 84)”.
Podem-se observar, assim, identificações bastante
eloquentes no testemunho de Lobo: a primeira que faz equivaler as
práticas exercidas pelo Regime Militar com as da Sociedade Psicanalítica
à qual estava vinculado; além daquela que compara sua própria situação
como candidato em formação na Sociedade Psicanalítica com os presos
políticos torturados. Nos porões da ditadura, que frequentou como agente
ativo da tortura, a brutalidade era institucionalizada e naturalizada, e
na Sociedade Psicanalítica, que retirou sua candidatura para deliberar –
sem fornecer nenhum parecer final sobre seu caso –, Lobo não encontrou
nenhuma palavra diferente da perversão institucionalizada que vivia
junto ao Exército, sequer no sentido da condenação das práticas de
tortura promovidas pelo Estado. Dessa maneira, surge uma questão
imediata quanto à formação psicanalítica: se na tortura o modus operandi
é a extração de confissões por meio da violência física e psicológica,
qual seria o modus operandi que promove as diversas violências presentes
no processo institucionalizado de formação psicanalítica? A manipulação
da transferência para fins de exercício do poder e manutenção do status
quo, como se quis demonstrar, cujos efeitos imediatos podem ser
constatados pela incorporação maciça dos ideais psicanalíticos
transmitidos pelos didatas – bem como pelas interpretações que cometiam,
aceitas sem reservas nem reflexão por parte dos candidatos. Mais uma
vez, recorremos ao depoimento de Lobo: ao contar ao seu primeiro
analista didata, Antônio Dutra Júnior, as experiências de seu novo
“trabalho” no DOI-CODI, que o deixaram com a “cabeça pesada”, o
“estômago revolto”, e “desesperançado” (sintomas que, ao que parece,
desapareceram bem rápido neste cidadão), relata que “foram interpretados
apenas meus aspectos sadomasoquistas nas relações parentais (Lobo,
1989, p. 22)”.
Havendo incorporado maciçamente interpretações
deste tipo, Lobo, na entrevista que deu à imprensa, em 1986, expõe ao
grande público uma das maiores caricaturas de psicanálise da qual já se
teve notícia. Lobo justifica sua impossibilidade de, à época, abandonar a
equipe de tortura, referindo-se à sua primeira infância e a suas “duas
mães”: Quando tinha seis meses de idade, sua mãe se ausentou por um
longo período, deixando-o aos cuidados de outra pessoa. Quando de seu
retorno, foi tirado dessa pessoa: “Então, todas as situações em que
possam ocorrer mudanças (…) realmente me afetam muito, me impedem de
executar essa mudança, entende? (…) Isso nem chegou a ser devidamente
analisado. Isso seria o responsável por aquele meu comportamento”.
“Não”, respondeu o jornalista, que não passou por nenhuma formação
psicanalítica20. Esta declaração, feita mais de seis anos após o término
da última análise de Lobo, sugere que as interpretações e o saber do
analista didata – que ocupava o lugar de detentor onipotente da verdade –
eram incorporados de forma estática, impossíveis de serem relativizadas
ou devidamente elaboradas ao longo do tempo.
De fato, considerando-se que no modelo de formação
psicanalítica então vigente o analista didata detinha um poder real
quanto à habilitação do candidato, pode-se considerar que a situação
assim estabelecida se assemelha àquela da clínica com crianças, na qual
as crianças chegam à análise obedecendo ao desejo dos pais, com os quais
experimentam uma relação de dependência real. O efeito consequente é a
incorporação de supostos “ideais psicanalíticos” – no caso, aqueles
alinhados à manutenção dos poderes na vida social e à reserva de mercado
dos analistas didatas vigente na SPRJ -, tais como os regulamentos da
formação, a representação do didata como detentor exclusivo do saber e a
sua recíproca, a representação do candidato como aquele que não sabe,
ao qual resta obedecer a ordem superiores. Ideais psicanalíticos
autênticos – a abertura para a fala, a escuta do desejo e do sofrimento,
o combate às hipocrisias culturais – tão presentes nos primórdios da
invenção freudiana, foram providencialmente recalcados, e mesmo
proibidos.
Para concluir, recorremos às considerações derradeiras de Kupermann (2014, p. 179):
No folclore popular brasileiro, carneiro é
“maria-vai-com-as-outras”. Animal de rebanho, representante maior da
psicologia de grupo, o carneiro é essencialmente obediente. Na sua forma
feminina, temos, no sentido religioso, a ovelha do rebanho, mas também a
“ovelha negra” – a desgarrada. Não se pode dizer que Lobo, em sua fase
de Dr. Carneiro, tenha sido ovelha negra. Bom militar, foi o sexto
colocado na turma de 36 aspirantes-oficiais do Exército (Lobo, 1989, p.
21). Bom aluno de psicanálise, era o primeiro entre 18 no curso de
psicoterapia de grupo ministrado pelo Dr. La Porta (p.52). No final das
contas, não fez mais do que “obedecer ordens superiores” (p. 99), e isto
fazia bem. Não era esse o ideal propagado na formação psicanalítica?
Triste herança que nossa psicanálise deixou, com a qual, entre o amor
incondicional e o abandono, é preciso se haver.
*Publicado originalmente em “Analítica: Revista de Psicanálise, v. 3, n. 4, pp. 173-200, janeiro/junho de 2014
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Referências:
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