http://www.tribunadaimprensa.com.br
segunda-feira, 11 de julho de 2011 | 12:17
Carlos Newton
Os nervos estão à flor da pele e o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, quase perdeu a linha com a repórter Luiza Damé, de O Globo, que lhe fazia perguntas sobre o envolvimento dele com as obras do Ministério dos Transportes na gestão de Lula, quando ocupava o Ministério do Planejamento.
Como se sabe, o ainda diretor-geral do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), Luiz Antonio Pagot, presta depoimento na Câmara hoje, e Paulo Bernardo é o coringa do carteado que se coloca sobre a mesa. Se Pagot fizer carga contra o ministro, dizendo que obedecia ordens diretas dele para beneficiar empreiteiras, vai ser uma festa.
De toda forma, mais ou cedo ou mais tarde, tudo virá à tona, não adianta tentar esconder, porque é corrupção demais. A CGU (Controladoria-Geral da União) já apura irregularidades em 34 contratos de obras e uma licitação do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e da Valec, estatal de ferrovias, órgãos vinculados ao Ministério dos Transportes. E a Polícia Federal já abriu outros 74 inquéritos para investigar desvio de verbas no Dnit, comandado até quarta-feira passada pelo PR, que é o ex-PL.
A coisa está feia, e na quinta-feira, representantes da CGU foram aos três órgãos (Dnit, Valec e Ministério), copiaram dados de oito computadores e levaram documentos para uma auditoria determinada pela presidente Dilma Rousseff. Os computadores do diretor afastado do Dnit, Luiz Antonio Pagot, do ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves, o “Juquinha”, e do ex-chefe de gabinete do Ministério dos Transportes, Mauro Barbosa, serão analisados.
Uma expressiva fonte de corrupção está na Valec, estatal na qual a CGU já encontrou irregularidades em 23 contratos e uma licitação para ferrovias. Um dos problemas levou o ex-ministro Alfredo Nascimento a cancelar em maio passado uma licitação de R$ 800 milhões para a compra de trilhos para a Ferrovia Oeste-Leste. E se Nascimento cancelou, é porque a corrupção realmente passara de qualquer limite.
Os 23 contratos com indícios de irregularidades são referentes a vários trechos em construção da Ferrovia Norte-Sul e somam quase R$ 2 bilhões. Há indícios de superfaturamento e pagamento por serviços não realizados.
No Dnit, estão sendo fiscalizados pela CGU inicialmente 11 contratos: sete de rodovias e quatro de hidrovias. Na maior parte deles, os pagamentos não correspondem ao que foi realizado pelas construtoras. Mas há os outros 74 inquéritos da Polícia Federal em andamento para investigar desvio de verbas no órgão, vejam a que ponto chegamos.
Bem, de toda forma, a partir das 9 horas da manhã, com o início do depoimento de Pagot, transmitido direto do Senado Federal, começaremos a saber mais detalhes sobre o Dnit, que é o antigo DNER, também famoso por suas bandalheiras. Mudaram o nome, que já estava completamente imundo e desgastado, mas esqueceram de mudar as práticas administrativas.
segunda-feira, 11 de julho de 2011 | 05:10
Carlos Newton
O colunista Ibrahim Sued vivia repetindo que “em sociedade tudo se sabe”. É verdade. De uma maneira ou outra, as informações acabam surgindo e circulando. Agora, com a revolução da internet, a velocidade da notícia passou a ser realmente meteórica, em tempo real, costuma-se dizer.
Os jornalistas brasileiros ainda mantêm um certo pudor em abordar a privacidade dos governantes, especialmente a vida amorosa. Nesse ponto, a imprensa brasileira é muito mais civilizada do que a inglesa ou a norte-americana, por exemplo, onde os tablóides denigrem qualquer um, com total liberalidade.
Mas nossos jornalistas sempre dão um “jeitinho brasileiro” de fazer revelações picantes, mesmo pisando em ovos e em linguagem mais ou menos cifrada, mas que acaba sendo entendida, pois o velho ditado nos ensina que, para quem sabe ler, um pingo já é letra.
No dia 27 de junho, por exemplo, o colunista Ricardo Noblat, de O Globo, encontrou uma curiosa maneira de dizer que o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, estava se separando da primeira-dama Adriana Ancelmo.
No violentíssimo artigo que publicou, sob o título “Diz aí, Cabral!”, Noblat deu a seguinte informação: “Sou do tempo em que os políticos escondiam amantes, tesoureiros de campanha e empresários do peito. Amantes ainda são mantidas à sombra – embora algumas delas, de um tempo para cá, tenham protagonizado barulhentos escândalos. Outras morrem sem abrir o bico”.
Comentamos aqui no blog que, com invulgar habilidade, Noblat contou tudo, sem dizer nada, revelando com clareza que a morte de Fernanda Kfuri era mais um motivo para o desespero do governador e para a insistência em “amarrar” com o amigo Eike Batista a história do empréstimo do avião, mentindo sobre a hora em chegou a Porto Seguro etc. e tal.
Agora, no sábado, outro destacado colunista de O Globo, Jorge Bastos Moreno, bem-informadíssimo sobre os bastidores políticos de Brasília, publicou uma nota, também em linguagem mais ou menos cifrada, a respeito do misterioso sumiço de Dilma Rousseff, durante cinco horas, no Rio de Janeiro, na semana passada, sob o título “O desaparecimento da presidente Dilma”.
Então, vamos conferir o texto publicado por Jorge Bastos Moreno, em sua coluna política na página 3 de O Globo:
“O amor verdadeiro é o maior antídoto contra intriga. Onde existe amor, não há desconfiança.
Na última quarta-feira, depois de uma visita oficial ao Rio, a presidente Dilma simplesmente desapareceu. Avisou aos ministros da sua comitiva, já dentro da base aérea do Galeão:
“Me esperem aqui. Vou ali e volto já”.
Dilma só reapareceu para o embarque cinco horas depois.
Perguntem-me se, na volta, alguém teve a coragem de perguntar o que ela esteve fazendo nesse tempo todo.
Durante cinco horas, Dilma esteve reunida, em algum lugar da cidade, com Lula.
Vejam que gracinha: Lula estava na base aérea de São Paulo, onde teria uma conversa com a presidente. Quando soube que Dilma se atrasara na cerimônia do Rio, resolveu esperá-la na base aérea do Rio e, assim, evitar seu deslocamento.
- Presidente da República é Dilma. Eu, que não sou mais nada, é que tenho que ir ao encontro dela – ponderou Lula ao cerimonial do Palácio.
Mesmo com uma baita crise sobre as costas, Dilma voltou a Brasília tão feliz, mas tão feliz, que até parecia ter visto um passarinho azul.
E viu!”
Esta surpreendente nota foi publicada no sábado. Note-se que Moreno foi muito mais contundente do que Noblat, cuja afirmação até passou despercebida para muita gente que ainda não tinha recebido nada pela internet, que àquela altura já começava a ficar infestada de mensagens circulando sobre Fernanda Kfuri e Cabral.
Moreno foi direto ao ponto. Começa a nota falando que “o amor verdadeiro é o maior antídoto contra a intriga” e dizendo que “onde existe amor, não há desconfiança”. Só faltou dizer que “o amor é lindo”. Depois, fala sobre longa duração do encontro secreto entre Lula e Dilma, e termina com uma observação picante sobre a presidente, dizendo que, “mesmo com uma baita crise sobre as costas, Dilma voltou a Brasília tão feliz, mas tão feliz, que até parecia ter visto um passarinho azul. E viu!”
Essa lembrança do passarinho azul, inclusive, é muito original, nunca ninguém ouvira falar disso. Quem chegou mais próximo foi Collor, na Presidência da República, quando disse “ter nascido com aquilo roxo”. De certa forma, de roxo para azul, não fica tão destoante assim.
Durante todo o sábado, aguardamos que saísse algum desmentido à nota de Moreno. O Planalto podia dizer que a presidente Dilma fora visitar uma velha amiga guerrilheira, que está doente, algo assim. Mas nada. Então esperamos passar 24 horas e fomos conferir na edição de domingo de O Globo, para ver se o Planalto ou o próprio Lula tinham se manifestado a respeito. Ainda nada.
Então, será que estou maliciando demais as coisas? Será que nenhuma outra pessoa entendeu a mensagem de Jorge Bastos Moreno da mesma forma do que eu? É possível acreditar que seja apenas “uma brincadeira” do jornalista?
Mas não se brinca com esse tipo de coisas. E os editores do jornal não deixariam ser publicada “uma brincadeira” dessa gravidade. Então, para que possamos realmente saber a quantas anda este país, por favor, que alguém esclareça essa situação, se puder.
segunda-feira, 11 de julho de 2011 | 05:00
Carlos Chagas
Na posse das informações sobre a inusitada visita, escrevi um artigo para “O Estado de S. Paulo”, sob o título “Brasília não vê JK chorar”, reproduzido em seguida por diversos outros jornais. Começou ali meu relacionamento com o presidente, a quem tinha visto e entrevistado no passado apenas de forma profissional. Seguidas vezes, aos domingos, ia visitá-lo na fazendinha. Ele não era daqueles políticos cheios de informações, que fazem a felicidade dos jornalistas. Dele fluíam sentimentos, assim como memórias permanentes. Fui tomando conhecimento, ao vivo, de centenas de episódios da vida dele, de seu governo e de seu calvário político.�
�
Contou-me, por exemplo, que ainda governador de Minas, mas já pré-candidato à presidência da República, compareceu ao palácio do Catete para uma audiência com o então presidente Café Filho, adversário implacável de sua candidatura. O tema que ia tratar dizia respeito aos preços mínimos do café, que seu estado produzia aos montes. Lá em cima, primeiro a surpresa: Café Filho tratou-o com desmesurada gentileza, chegando a levantar-se da cadeira presidencial e pedindo que ele nela sentasse. Meio sem jeito, sentou, quando o presidente mudou de tom, tornou-se agressivo e disse: “Esta foi a primeira e a única vez que você ocupou essa cadeira. Você não será presidente, até porque os ministros militares não querem!”
�
Irritado, JK deu a audiência por terminada e desceu até a sala de imprensa. Os jornalistas não tinham a menor idéia do que se passara. Foram logo perguntando sobre o café, claro que não o presidente. Vingou-se: “De que café você está falando, meu filho, do vegetal ou do animal?”
�
Naquela noite a Hora do Brasil divulgou o manifesto dos ministros militares, contra sua candidatura. Reunido com amigos em seu apartamento, em Copacabana, aceitou a sugestão de Augusto Frederico Schmidt, telefonou para o “Correio da Manhã” e ditou sua reação, começando com a frase lapidar de que “Deus poupou-me o sentimento do medo”.
�
Não é essa a oportunidade para referir o que foi o governo de Juscelino Kubitschek, muito menos para concordar com um certo sucessor dele, responsável pela falsa imagem de que a paciência era sua maior qualidade. Bobagem. Ele era a impaciência em pessoa, queria tudo pronto e resolvido o mais breve possível, como ainda há dias retificou sua filha Maristela. Tão impaciente que mudou o Brasil.
�
Homem de coragem física. Sabendo por amigos comuns que Jânio Quadros faria violento discurso contra o seu governo, na hora da transmissão da faixa presidencial, mandou avisar que reagiria. Chamou o chefe da Cerimonial e indagou como seria a solenidade. Informado de que logo atrás dele estaria o seu ministério, assim como o ministério de Jânio atrás do novo presidente, pegou o mapa e, com um lápis vermelho, mudou a disposição. Queria ficar frente a frente com o sucessor, a menos de um metro um do outro. E os ministros bem atrás.
Disse-me anos depois estar pronto para, se ofendido em sua honra, dar um passo à frente e um soco na cara de Jânio. Ia ser um escândalo internacional, mas estava decidido. Os tais amigos comuns souberam, avisaram o novo presidente e, na hora da passagem do governo, Jânio foi todo sorrisos e elogios.
Ao deixar o palácio do Planalto, JK foi acompanhado por grande multidão até o aeroporto que hoje leva o seu nome. No Galeão, voaria direto para Portugal, com a família. A aeronave começava a sobrevoar o Atlântico quando o piloto chama-o à cabine. Colocou os fones de ouvido e percebeu que Jânio discursava, na “Hora do Brasil”. Dizia tudo aquilo que não tivera coragem de dizer com os olhos nos olhos. Voltou á sua poltrona e pensou como o Brasil ainda tinha muito a percorrer em matéria de democracia.
Muito mais tarde, com os dois já cassados, foi ao Guarujá para uma palestra. Descansava depois do almoço, no quarto do hotel, quando escutou um vozerio na porta. De repente, quem irrompe pelo aposento, sentando-se na beirada da cama? Jânio Quadros. Nunca mais se tinham encontrado e o ex-presidente, segurando seu braço com as duas mãos, exclamou aos berros: “Errei, meu amigo, errei. Também, eu nem tinha lido antes o discurso que escreveram para mim…”
Quando da renúncia de Jânio Quadros, a imprensa encontrou Juscelino na sede do extinto PSD, no Rio. Só teve um comentário: “É doido mesmo…”
Integrou-se à campanha de Leonel Brizola pela posse de João Goulart, mas, já senador por Goiás, insurgiu-se contra a decisão do Congresso de implantar o parlamentarismo. Era candidatissimo a voltar ao poder em 1965. Só que, pouco antes de deixar o governo, fechou a cara para Tancredo Neves, seu dileto amigo, diante da proposta de ver votada emenda constitucional permitindo sua reeleição. Nem quis ouvir falar no assunto…
Em 1963 e 1964, estava em plena campanha. Adotou o costume de visitar jornalistas, mais do que ser visitado por eles. Foi ao apartamento do saudoso Oyama Telles, do “Correio da Manhã”, conversar com cinco ou seis repórteres políticos, entre os quais eu estava incluído. Semanas depois, a vez da casa do também hoje desaparecido Heráclio Salles. Estava marcada para o final de abril de 1964 sua ida ao meu apartamento, no Flamengo. Não deu, por conta do golpe militar. (continua amanhã) .
admin |
Carlos Chagas