A LITURGIA DO CARGO
José Flávio Abelha *
Faz parte do cerimonial que a chegada do Presidente da República seja antecedida por uma espécie de continência iniciada por uma banda militar e, perfilados, os militares, de qualquer patente, apresentem as continências de praxe.
A bandeira da presidência é hasteada anunciando que o Presidente ali se encontra, e assim fica até que o primeiro mandatário deixe, em definitivo, o recinto.
Nos filmes americanos a cena é comum quando o Presidente chega, até em festas, bailes ou solenidades especiais e, convenhamos, o hino/continência deles é muito bonito, e a pompa também.
Quando a Presidenta Dilma Rousseff chega, em solenidade ou não, os militares, todos, se perfilam e fazem continência.
Ela é a Comandante-em-chefe das Forças Armadas e a continência simboliza a obediência e o respeito.
Por falar em Presidenta, no feminino, e não na Presidente Dilma, o jornalista Ricardo Batista Amaral, no seu definitivo trabalho “A Vida Quer é Coragem” – A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil (Editora Primeira Pessoa, 2011), nos conta o seguinte fato na pg. 303:
- “Quinze dias depois da eleição, o cerimonial do TSE consultou a eleita sobre a forma de tratamento que ela preferia receber nos convites para a cerimônia de diplomação: presidente ou presidenta?”.
Durante a campanha, Dilma recebeu pareceres de filólogos indicando que as duas formas eram aceitas no idioma português; usar uma ou outra seria questão de gosto ou de costume. João Santana captou em suas pesquisas que a forma feminina causava “um certo estranhamento” entre as pessoas. Disciplinada, Dilma manteve a forma presidente em seu material de propaganda...”
Até hoje há um certo estranhamento entre determinadas pessoas que tentam enfrentar, com gozação, os 77% de prestigio que a presidenta atingiu.
Puro besteirol de pessoas que desejam se mostrar e mostrar muita erudição, indo aos quintos do inferno à busca de uma aulinha de português, demonstrando, inclusive, que não consultaram, porque não possuem, o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, o Grande Dicionário de Cândido de Figueiredo, Aurélio, Houaiss, Aulete, Larousse, Michaelis, dicionários da língua espanhola e muitos mais.
Com esses pitacos eu estou desviando do principal:
A Liturgia do Cargo.
Leitoras e leitores já repararam que, na página de rosto deste blog, eu mudei a apresentação e anotei somente: UM BLOG POLITICAMENTE INCORRETO.
Meu norte é o poema abaixo:
CÂNTICO NEGRO de José Régio:
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Acredito que as minhas leitoras e os meus leitores, poucos, mas fieis, já entenderam o porquê do “politicamente incorreto”.
Sempre fui rebelde, sempre com idéias progressistas, mas não indo tal qual a Maria-vai-com-as-outras.
Na minha juventude era moda seguir as idéias de Plínio Salgado. Senti necessidade de conhecer o que o líder integralista tinha a dizer. Li muitas obras suas e, de tudo, me ficou, do seu decálogo aos jovens, um mandamento que sigo até hoje: “Não sejas escravo do último livro que leres”. E só!
Uma outra lição me foi dada pelo golpista coronel Jarbas Passarinho.
Em longa entrevista, o homem que, ao assinar o AI-5, cunhou a inesquecível frase: “às favas com os escrúpulos de consciência”, mostrou a sua biblioteca povoada de livros dos grandes filósofos chamados de comunistas.
Explicou o coronel que leu tudo sobre o que ele achava ser o pensamento e as táticas comunistas e acrescentou precisar conhecer o inimigo para combatê-lo.
Certamente leu e aprendeu as lições de Sun Tzu ou, quem sabe, Carl Von Clausewitz que nunca li mas, segundo consta, teria decorado Sun Tzu.
Porquê não repassar na JANELA texto dos militares que reclamam do descaso do governo sobre a insegurança da Amazônia e o perigo que corre o nosso país de perdê-la?
Seria porque são militares e todos são golpistas? Patriotas? Nacionalistas? Berço do golpe de 64?
Estou lendo A Privataria Tucana, o libelo de Amaury Ribeiro Jr. (Ed. Geração Editorial-2011)e me detenho nas citações indicando as fontes: Veja, Isto É, O Estado de Minas e o afiliado de Brasília, O Estadão, A Folha e outros mais.
Perdemos grandes periódicos, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, para citar os dois mais importantes.
Ninguém, ninguém mesmo, moveu uma palha para segurar esses ícones da imprensa séria e que prestaram grandes serviços ao Brasil!
Tomando emprestado do poeta Augusto dos Anjos, esquecido na cidade mineira de Leopoldina, “a imprensa que afaga é a mesma que apedreja”.
Lembram-se dos tempos da ditadura?
Imprensa – ruim com ela, pior sem ela!
Dito isto, vou falar sobre a Liturgia do Cargo, citando um político atualmente execrado, antipatizado, combatido e repositório de todos os adjetivos depreciativos.
Não! Vou citar o outro José Sarney . O já esquecido Zé Sarney.
Aquele governador do Maranhão que foi morar no palácio do governo, em ruínas, para agilizar a sua restauração, tal qual fazia o governador Mangabeira com o Hotel da Bahia e JK com Brasília.
Aquele Sarney que transportou no porta-malas do seu carro, dezenas de amigos, todos comunistas fugindo da ditabranda.
Aquele Zé do Sir Ney que se casou com a herdeira da metade de uma ilhota nas costas maranhenses, tal qual Brizola, com a fazenda no Uruguai, herança de sua mulher dona Neuza, irmã de um dos homens mais ricos da América Latina, diga-se, que a ditadura não lhe confiscou um palmo de terra sequer.
Aquele deputado federal que, chegando a Brasília, foi convocado pelo presidente Jânio para assumir uma embaixada sul-americana, com o argumento de que o deputado possuía uma família grande e o dinheiro que receberia não lhe proporcionaria o conforto necessário. O deputado agradeceu e disse ao presidente que, mesmo com sacrifício, continuaria no parlamento, para aprender.
Cito Sarney que batizou uma ponte com o nome de um poeta, amigo, comunista, contrariando o ditador Castelo Branco que informou só ir cortar a fita da inauguração se o nome na placa fosse trocado. Sarney não trocou e o ditador lá não apareceu.
Falo de Sarney, aquele que viu a intimidade de sua filha ser invadida por canalhas a mando de José Serra, com o objetivo de queimar-lhe a candidatura.
E tem mais Sarney que gostaria de citar, mas já estou me alongando.
Mas, ainda lembro José Sarney, aquele que rompeu com o establishment ditatorial aliando-se a Tancredo para derrotar o candidato da situação, Paulo Maluf.
Certo dia já Presidente, cansado de ver o seu genro atravessar a sua sala em mangas de camisa, gravata frouxa como se na sua casa estivesse, chamou-lhe às falas explicando ao seu secretário particular, genro, marido da Roseana que, na ilha ou na casa em São Luiz, todos poderiam andar de bermudas, sandálias, sem camisa mas, em palácio, ali estava o Presidente da República e não o seu sogro, e que, a LITURGIA DO CARGO exigia um traje correto e em público, um cumprimento formal.
Pela primeira vez ouvi falar em Liturgia do Cargo tão bem explicada.
Assustei-me, agora, com a marcha que trabalhadores e suas lideranças, de braços dados com a nata do patronato, do comércio, da indústria e serviços e suas lideranças nacionais, empreenderam para protestar contra medidas do governo Dilma.
De braços dados, lado a lado, o deputado Paulinho da Força Sindical e Paulo Skaff, presidente da FIESP.
Perdôo Paulinho porque calculo nunca ter lido qualquer livro sobre as relações capital X trabalho nem saber quem é Marx, Engels e outros ideólogos, cujos ensinamentos estão, a cada dia, mais vivos e mais atuais.
Até aí vai meu perdão ao deputado.
O que eu não posso perdoar é a sua declaração na TV, no calor dos holofotes e câmeras:
“A Dilma lançou um remendo perdoando pontualmente algumas indústrias. Foi uma”.
decisão feita nas coxas (sic)”.
Dilma a que se referia, com toda a intimidade e falta de respeito, o líder de uma parcela dos trabalhadores, era a Presidenta da República Dilma Rousseff, e a tal de “decisão feitas nas coxas”, nem Sarney, com a sua obediência cega à Liturgia do Cargo, explica o desrespeito.
Seria isso democracia, licenciosidade ou falta de vocabulário?
*Mineiro, autor de A MINEIRICE, PEQUENA INTRODUÇÃO Á TURISMOLOGIA e outros livretes, reside na Restinga de Piratininga/Niterói, onde é Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltd. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar . Agora, agitante do blog JANELA DO ABELHA, http://oblogdoabelha.blogspot.com
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