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A presunção da catástrofe da COP 26: engenharia de consenso do Capitalismo Verde Posted: 03 Nov 2021 01:07 PM PDT “É mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que o fim do Capitalismo”, disse certa vez Fredric Jameson. Por quê? Basta uma olhada nos títulos de filmes sci-fi nas plataformas de streaming e a retórica metonímica diária dos telejornais: acompanhamos a engenharia do consenso em torno de uma presunção da catásfrofe – as mudanças climáticas e o esgotamento dos recursos naturais estão levando à destruição do planeta! Mas não do Capitalismo, que vê na crise a repetição de uma velha lógica descrita por Marx e Weber: a pressuposição subjetiva da escassez gera valor. Esse é o pressuposto do “Capitalismo Verde” ou “Green New Deal”: o problema não está na sociedade, está numa Natureza tão frágil que precisa de ajuda: iniciativa privada, financeirização mas, principalmente, socializar as perdas e privatizar os ganhos. Três pequenos contos relacionados com a COP 26 mostram isso: o clichê “Ethno World” dos organizadores da Conferência, a carreata de 85 veículos de Joe Biden pela ruas de Roma e a “galhofa” de um diplomata norte-americano. Três pequenos, mas significativos contos associados à Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas – a COP 26: (1)
Txai Suruí, ativista indígena de 24 anos e fundadora do Movimento
Juventude Indígena em Rondônia, foi a representante brasileira na COP
26. Em seu discurso, acusou as “mentiras vazias e promessas falsas”.
Celebrada pela mídia corporativa brasileira como “a voz do Brasil” (na
ausência do presidente Bolsonaro) e o “reconhecimento pela ciência do
conhecimento indígena”, Suruí deu uma rápida entrevista para a “Edição
das 16” da GloboNews (01/11) entre os corredores do evento. Em meio a
sua fala em que correlacionava justiça climática, social e proteção de
territórios indígenas, a jovem ativista, em trajes “tradicionais” e
rosto pintado, cometeu uma pequena “gafe”: de passagem, observou que, na
verdade, estava com um traje indígena peruano, cedido pela organização
do evento para o seu pronunciamento na plenária. (2)
Joe Biden embarcou na Europa para a COP 26 em Glasgow, Escócia. Mas,
antes disso, o presidente dos EUA cruzou Roma em uma carreata de 85
veículos – uma impressionante caravana com várias limusines, SUVs e vans
devoradoras de gasolina e diesel. Com destaque para a sua nova limusine
Cadillac “The Beast 2.0”, com um potente motor diesel 5.0. Tudo isso para visitar o Papa Francisco no Vaticano onde discutiu com o Pontífice as mudanças climáticas. "Todos
nós temos essa obrigação para com nossos filhos e netos de reduzir o
uso de combustíveis fósseis”, vaticinou após desembarcar de uma carreata
movida a combustíveis fósseis que supostamente causariam a “crise
climática”. O que também incluiu viagens no Air Force One para a Europa e
aviões de transporte levando alguns dos veículos para o exterior,
emitindo uma considerável quantidade de carbono. “Onde estava Greta Thunberg para se enfurecer no Twitter sobre a enorme carreata de Biden” - Paul Joseph Watson (@PrisonPlanet) 30/10/2021. (3) Quem conta essa história é o jornalista Luis Nassif: “No
auge da era do etanol, Otto Reich veio ao Brasil. Tratava-se de um
diplomata americano especialista em América Latina, estreitamente ligado
à família Bush, e organizador de uma tentativa de golpe contra Hugo
Chávez na Venezuela. Vinha atrás de negócios da economia verde e
embalado pelas conclusões de cientistas sobre o aquecimento do planeta.
Em um encontro em um hotel em São Paulo foi mordaz: “Nenhum de nós
acredita no aquecimento do planeta... Mas temos que aproveitar os bons
negócios” – clique aqui. Ethno World e o Capitalismo de escassezPodemos
considerar que, por pouco, a brava ativista Txai Suruí não recebeu da
organização da COP 26 algo como um cocar ou vestimenta Apache – afinal, é
essa a visão “ethno world” que a indústria climática do Capitalismo
Verde possui a respeito dos “povos originários” do planeta. Enquanto
isso, o presidente líder da causa climática (US$ 1,75 trilhões para seu
projeto de lei para gastos sociais e climáticos) se desloca numa
imperial carreata/caravana que gera um total de 2,2 milhões de libras de
carbono. O que comprovaria o modus operandi revelado pela sinceridade do diplomata norte-americano Otto Reich na visita ao Brasil. Desde o crash da bolha especulativa de 2008, foi acesa a luz amarela para o Capitalismo: “Pensamos
que o capitalismo corre o risco de desmoronar. O negócio, que no
passado era muito reticente quanto ao mecanismo de investir de forma
sustentável, planeja aumentar sua visibilidade. Precisamos entrar todos
juntos nisso. Seremos mais agressivos porque precisamos”, alertaram Al
Gore e David Blood em artigo do Financial Times de julho de 2017 que
pareceu mais um manifesto sobre a necessidade de salvar o capitalismo do
que um libelo pela salvação do planeta. “É
mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que o fim do capitalismo”,
afirmou certa vez Fredric Jameson. Ao lado do novo salto mortal da
financeirização com o dinheiro digital, também a Natureza se oferece
como a fronteira final para a comoditificação – uma nova oportunidade
para criar a mais nova bolha especulativa – e, claro, com muita injeção
de dinheiro público. Afinal, também para a indústria climática as perdas
devem ser socializadas. E os ganhos privatizados. A
lógica pela qual se orienta essa nova indústria é menos
científico-ambiental do que econômica através da velha lei do mercado no
Capitalismo, descrito tanto por Karl Marx quanto pelo sociólogo Max
Weber - em última instância, para produzir mercantilização e gerar valor
a economia capitalista exige o pressuposto subjetivo da escassez: o
valor de uma mercadoria somente pode ser determinado se ela for um bem
“escasso” no sentido de que atenda a uma demanda sempre crescente e
nunca satisfeita, pois a sua “utilidade” é sempre tomada como
insuficiente ou um bem escasso na sociedade. “É propriamente decisivo, para uma atuação racional com respeito a um objetivo, que tal escassez seja pressuposta subjetivamente, e que se trabalhe em consequência com tal orientação” (WEBER, Max. Economia Y Sociedad, Edit. Fondo de Cultura, México, p. 17.) Os
pressupostos desse novo negócio estão dados através da engenharia do
consenso (psyOps + RP): o meio ambiente, a camada de ozônio e as
condições de sobrevivência humana num planeta em aquecimento tornaram-se
bens escassos. Afinal, não é isso que filmes sci-fi com a ideologia
Elon Musk (nove em cada dez produções) que povoam as plataformas de
streaming nos informam? – heróis que audaciosamente colonizam
exoplanetas para fugir da Terra agonizante. Diariamente
somos bombardeados por alarmantes telejornais apresentando imagens de
enchentes imprevisíveis, incêndios descontrolados, tempestades de areia
pegando de surpresas áreas urbanas e tufões devastando as vidas de
famílias inteiras. Seriam
evidências de que o fim se aproxima se não fizermos nada? Mas não
fizermos QUEM, cara pálida? Por que o sempre atento jornalismo
corporativo não percebe a distribuição desigual dos prejuízos dessas
tragédias climáticas? Sempre quem sofre, perde o próprio teto e vê a
própria vida virar de ponta-cabeça são os mais pobres, condenados a
viver em áreas de risco. Claro
que o leitor poderá dizer que os apocalípticos incêndios na Califórnia
atingem também aqueles hollywoodianos bairros repletos de mansões. São
exceções que acabam confirmando a regra – são propriedades cobertas por
seguros milionários e, muitas vezes, propriedades que nem são
residenciais. Enquanto
isso, aquelas assustadoras imagens de tempestades de areia que
atingiram o interior de São Paulo (exibidas metonicamente antes da
previsão do tempo) são colocados na conta do “aquecimento global”. Com o
objetivo manipulador de tirar o foco na desertificação do interior do
Estado promovida pelo agronegócio, dentro da política neoliberal de
primarização da economia brasileira – a tal “banana platation”. Passos da engenharia do consensoEm
primeiro lugar, essa engenharia do consenso em torno das mudanças
climáticas necessita expurgar as contradições sociais e a própria
História – aquilo que Roland Barthes chamava de processo semiológico de
construções de “mitologias”. Com
exceção do Cadillac de Joe Biden, TODOS NÓS precisamos fazer alguma
coisa. A humanidade sempre é vista de uma forma tão abstrata quanto o
“ethno world” da organização da COP 26. Essa abstração produz aquele imaginário individualista (privatista) do “se-cada um-fizer-a-diferença-o-planeta-será-salvo”. Em
segundo lugar, a engenharia do consenso tem que demonstrar para o
distinto público, porque o mercado, a iniciativa privada e o Capitalismo
são a única esperança que nos resta para salvar o planeta. Como
sempre, entra em ação os sci-fi tipo Elon Musk mostrando que aqueles
bravos heróis arriscando a vida em exoplanetas cruzaram milhares de
anos-luzes em sofisticadas espaçonaves do setor privado. Ou, para quem
não gosta do gênero, tem os telejornais com imagens heroicas do ator
William “Capitão Kirk” Shatner sendo mandado para o espaço a bordo da
Blue Origin, do bilionário Jeff Bezos. Depois
do entretenimento e infotenimento subliminares, entra o argumento
principal da cartilha neoliberal: os custos do combate à mudança
climática são altos demais para os governos assumirem por conta própria e
que o setor privado sempre tem melhores respostas. para os defensores
do capitalismo verde, a parceria público-privada garantirá que a
transição do capitalismo marrom para o verde seja neutra em termos de
custos. Investimentos com preços eficientes em novas tecnologias
supostamente impedirão a humanidade de cair no abismo. Não
é à toa que, dessa vez, a estrela-ativista Greta Thunberg ficou de fora
da COP 26: descobriu-se que a sua verve de rebeldia juvenil é mais
eficaz lá fora, nas ruas do entorno do evento. Vídeos
publicados em redes sociais mostravam Greta saindo de uma estação de
metrô para rapidamente ser cercada por outros manifestantes. Ela
atravessa a multidão, no meio de fotógrafos e de outros participantes da
manifestação. Segurando
um microfone numa praça em Glasgow, acusa os líderes políticos e chefes
de Estado de “traição” por não cumprirem às metas para combater às
mudanças climáticas. “Trinta anos de blá-blá-blá”, protestava Greta. Dentro
da engenharia de consenso, essa COP 26 assumiu uma função de imolação
pública dos políticos e do Estado: nas ruas vemos protestos cujo
ativismo é financiado por corporações tanto verdes quanto marrons. Assim
como Greta Thunberg, uma das estrelas do Green New Deal cuja imagem foi
construída pela start up tecnológica “We Don’t Have a Time” que atua em
três mercados: mídia social, publicidade digital e crédito de carbono –
a pedra de toque do Green New Deal – clique aqui. A
ideia é colar no Estado e seus dignatários a imagem da incompetência,
“blá-blá-blá”, da “falta de vontade política” e falta de conhecimento
técnico-científico, cuja iniciativa privada teria de sobra. O
capitalismo verde defendido setor privado parece ser mais um artifício
para evitar um ajuste de contas real. Se os líderes empresariais e
financeiros fossem sérios, eles reconheceriam a necessidade de mudar
drasticamente o atual curso, para garantir às sociedades a distribuição
equânime dos benefícios. Não
se trata de substituir ativos verdes por ativos marrons, mas de
compartilhar as perdas que o capitalismo marrom impôs a milhões e
garantir um futuro até mesmo para os mais vulneráveis. O
problema é que o Capitalismo Verde quer criar soluções que sejam
mantidas dentro dos limites do próprio sistema econômico que devastou a
Natureza. E mais: que as chamadas “soluções limpas” e, principalmente, a
escassez (de água potável, energia etc.) tornem-se oportunidade de
criação de valor e precificação das novas commodities verdes. Do movimento ambientalista ao Capitalismo VerdeO
movimento ambientalista contemporâneo surgiu como tendência influente
no pós-guerra, principalmente na Europa e América, com o surgimento dos
movimentos contraculturais que idealizavam uma associação entre alta
tecnologia industrial com a vida rústica integrada à Natureza.
Contestavam o modelo de civilização em vigor. Alguns
de inspiração marxista acreditavam que o problema estava no modo de
produção capitalista, onde a ganância do Capital produzia desperdício e
destruição. A
vigorosa emergência do movimento pegou na época os sociólogos de
surpresa. Mas a reposta foi rápida com o surgimento do chamado Clube de
Roma (fundado em 1968 por acadêmicos, cientistas, diplomatas e
empresários) que em 1972 publica o relatório Os Limites do Crescimento,
elaborado pela equipe do MIT – Massachussetts Institute of Technology.
Nessa publicação está a origem de toda a atual agenda corporativa sobre o
meio ambiente com temas que seriam cruciais para a humanidade tais como
energia, poluição, tecnologia, saúde e crescimento populacional. Há
uma reviravolta em relação à crítica ambientalista da contracultura: se
lá o problema estava no modo de produção e nas relações sociais de
trabalho (e, portanto, a causa ambiental estaria associada a questões
mais amplas como direitos humanos, liberdade, desenvolvimento equitativo
etc.), a partir do Clube de Roma a questão se desloca da sociedade para
exclusivamente a Natureza, abordada como dotada de recursos finitos e
escassos. Portanto, o problema estaria na irracionalidade humana em não
saber disso e insistir no crescimento industrial e populacional. O
culpado é o homem, pensado como um ser genérico, abstrato, sem definir
classe social ou nacionalidade. O
decisivo para a nova ordem econômica é a concepção dos recursos
naturais como bens escassos. Se eles estão acabando, seja pelas mudanças
climáticas, seja porque o planeta é pequeno demais para as ambições
humanas, passam a serem bens altamente estimados e valorizados. A
escassez é o pressuposto econômico no capitalismo para a transformação
de qualquer coisa em mercadoria. O
neoliberalismo acredita que o mercado é a única instância que
sincronizaria de forma racional a oferta e a demanda - a mercantilização
generalizada é agora inscrita na Natureza. Em outras palavras, a
escassez dos recursos naturais é a justificativa “orgânica” para a ordem
mercantil, com o apoio do discurso ambientalista corporativo. Por
isso, não são surpreendentes notícias de que ONGs ambientalistas como o
Greenpeace tenham o apoio financeiro de grandes empresas petrolíferas,
Fundação Rockfeller e mercado de energia elétrica – sobre isso clique aqui. Um
exemplo dessa convergência entre mercado e ambientalismo são os
créditos de carbono (sistema de compensação onde empresas que não tenham
conseguido diminuir a emissão de gases podem comprar créditos de
terceiros que fizeram tais ações) negociados em bolsas de valores,
leilões etc., criticados por mais favorecer o mercado financeiro do que o
meio ambiente – sobre isso clique aqui. Na
medida em que se coloca o mercado como a única instância onde
supostamente se equalizaria racionalmente os recursos naturais escassos,
estes deixam de ter o controle público por meio das pressões pela
privatização. As consequências são muito mais político-econômicas do que os supostos benefícios que salvem o planeta: (a)
O Estado entrega para o Capital e para o mercado que autorregule o
conjunto de iniciativas ambientais. Sem planejamento global, tudo fica
entregue às iniciativas individuais que “façam a diferença”. Enquanto as
famosas parcerias público/privadas esperam a injeção de dinheiro
público para a socialização das perdas; (b)
Deixando de fora qualquer iniciativa pública (afinal, qualquer
iniciativa estatal será sempre “política” e, por isso, intrinsecamente
corrupta e ineficaz), as políticas ambientais deixam de ser justas e
equânimes – a financeirização e comoditificação tomam conta das
políticas ambientais criando novas formas de colonização de países pela
via do endividamento. Como no caso M-Kopa Solar, fornecedora de kits
solares no Quênia, Tanzânia e Uganda – ao invés de vender energia solar,
na verdade vende crédito com altas taxas de juros – clique aqui. (c) A engenharia de consenso em torno da urgência criada pelas mudanças climáticas transforma um problema social e político (a distribuição desigual dos prejuízos ambientais) em uma questão meramente de solução técnico-científica. Em outras palavras, tira o foco no Capitalismo para a Natureza – ironicamente, a presunção da catástrofe vira oportunidade de lucro, confirmando a velha lógica do Capital descritas por Marx e Weber: a escassez gera valor. No caso, a escassez de futuro (midiaticamente martelada todo dia) produz a necessidade de esperança oferecida pelas soluções mágicas privatistas que “fazem a diferença”.
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